Antes da Mesa 1
sejamos práticos
e sinceros
orelha nenhuma tem que ser bonita
têm que ser simpáticas
ou inteligentes
as suas são do primeiro tipo
(Fabrício Corsaletti)
Parece que é simples assim: chegar, acomodar as malas, calçar algo adequado para as ruas de pedras e sair pelas calçadas de sol e janelas sorridentes. Não é. Para mim, ao menos. Tem o método, o desapego dos dias de ontem, o telefone que chama mais do que anteontem, a conexão imperfeita nas salas de máquinas que faz parecer falha qualquer comunicação. Também é falso. A comunicação não pode ser falha em um lugar de livros que se balançam em árvores, entre crianças que vasculham linhas com olhos arregaladamente interessados. De verdade. Passei por uma que dizia à professora: “preciso vir de crachá amanhã? então vou dormir com ele para não esquecer”. Sorri até o canto de minhas orelhas imperfeitas imaginando que Corsaletti deveria avaliá-las melhor antes da dedicatória que vou pedir justamente nesta página. Sim, já fiz a dobra na 149 e faço questão agora de orelhas de um segundo tipo.
Não é simples, não. Mas há aqui um prazer ora festivo, ora melancólico. E há uma porção de coisas únicas: que só a FLIP faz por você. A gente ri de algumas dores nos pés e outras em lugares indizíveis (e aqui eu não me refiro – ainda – à literatura de Stigger). As coisas mudam e não mudam de verdade. Há uma vontade, a gente sente – e não mentem os olhos esperançosos de Cassiano, nem a água azul do sorriso de Liz. Mas o andar ainda usa as velhas e belas charretes da praça. Alguém marca às 16h um encontro com o pessoal da imprensa, a gente corre com um franguinho leve no almoço e pontualmente espera. E espera até 16:40h para uma reunião de onze minutos em que resumidamente é esclarecido que já temos todo o material e informações necessárias. Verdade. Eu, pelo menos, concordei. Até o evento de abertura. E aí eu queria voltar ao papo daquela reunião que fora interrompida (para que os organizadores fizessem a boa digestão do recém e merecido almoço), eu não percebera que precisaria fazer uma pergunta sobre o que não estava escrito. Não vou digerir aqui o caso do evento de abertura porque é tarde: São duas da matina e eu troquei o show por um jantarzinho inigualável (todos os humanos do bem deveriam ter a chance de fazer o mesmo) ali no Restaurante A Luzia (Rua do Comércio 58) regado ao bom vinho, música pra alma, semblantes amigos e comida de primeira. Ficamos lá antes de encarar a noite fria que nos levaria aos tropeços de volta ao nosso quarto lilás.
Mas bem antes disso, estava marcada uma coletiva com um jovem escritor que muito me agrada por sua experiência dolorosa e marcante muito longe de casa. Esperavam os pacientes desde as 19h, mas os impacientes saíram do local quarenta minutos depois porque o escritor havia saído cinco minutos antes do horário marcado para comer pastel com pessoas amigas. Não sei se voltou. Perdi esta parte da história e lembrei daquelas do Silviano Santiago.
Pelos meus cálculos, cheguei ainda cedo ao evento de abertura. Não vou falar sobre minha impressão esquisita de não ter para onde olhar sentada na lateral da quarta fila. Para um lugar central eu devia ter imaginado ponteiros um tanto mais adiantados. EntãO, foi como antigamente, ouvindo rádio, as informações chegando. Tudo bem sobre essa besteira de comprar ingressos antecipados e chegar com muitos minutos de antecedência para um evento que a julgar pelo cotidiano vai atrasar: “Batata!” – como dizia Nelson. Tudo bem que crachá de imprensa não dá direito a sentar nas três primeiras fileiras mesmo que você tenha pago pelos seus ingressos. Mas o mocinho simpático que se desculpou e depois formou com os demais a corrente protetora contra os portadores de crachás de imprensa garantiu que aos jornalistas estava reservada a área lateral – ao lado das cadeiras. Sim, os fotógrafos poderiam tentar encontrar um bom ângulo ali, de pé, no canto ao lado dos “sem ingressos” (espertos!) que se divertiam atrás das grades. Um sentimento estranho, quase pior do que possuir as orelhas nada bonitas e provavelmente pouco inteligentes. Eu não vi Bárbara nem Cassiano e nem Liz. Eu ouvi tudo com minhas orelhas antipáticas e laterais, com brincos feitos de ingressos antecipados bem pagos, e credenciais cinza. Se ao menos fossem coloridas como as portas e janelas de Paraty… mas não. E aí a Orquestra Imperial me fez lembrar de um Pedro, um grito e uma saída. Bem lateral e rápida eu disse ao homem de preto: estou saindo para ver a vida e a lua. Ele achou que era uma boa idéia.
Já na cama, eu li trechos de Giannetti. Ela é uma menina engraçada que me faz sentir coisas estranhas:
“Temos os fantasmas que merecemos. Eles são feitos de coisas que não cabem aqui. Vieram sem anúncio e somente quando decidiram ir embora é que percebi o quanto sempre estiveram presentes, pois, até então, nunca haviam desaparecido. Estavam aqui e agora, se há matéria, é só palavra, papel, tinta – um fantasma no envelope fechado, um fantasma dobrado na gaveta. Que meia dúzia de palavras corajosa poderiam lhes escapar lá de dentro?” (p.171)
Voltei à mesa e comecei a escrever essas coisas depois de todo o cansaço dos dias e das alegrias dos vivos. Queria dizer de algo que vi em Cecília e Verônica que me fizeram voltar ao Pequeno Manual do César Aira, mas a madrugada me consome e marquei café da manhã cedo pensando em não perder a coletiva (e já nem sei se devo ainda acreditar nisto) de Dennis Lehane e chegar a tempo de encontrar um lugarzinho menos lateral na Mesa 1: dos ousados e bons brasileiros que têm me arrancado orelhas nos seus novos livros. (porque ando mesmo inteiramente orelhas e das mais imperfeitas, praticamente fazendo questão do “dane-se”) Mas, a madrugada me faz mal aos olhos. E o corpo dói em súplicas pela cama fofa de poucas horas de duração.
A FLIP é assim mesmo. E faz essas coisas com a vida da gente, com as orelhas, com os risos, com as linhas, com as vontades. Eu faço parte da FLIP dos humanos orelhudos. Há outra, creiam-me. Há a FLIP dos escritores e dos convidados. Ninguém pode compreender o olhar do outro em tão diferentes alturas. Há estrelas. E regras. E elegâncias. Há quem proíba ser fotografado, há quem se negue a dar entrevistas, há um povo na praça procurando linhas e outro no meio do jardim de uma pousada luxuosa trocando línguas. Mas de tudo, creio, há o melhor: talvez um mexicano que escreva a sangue ou um moçambicano que revire a alma de quem estiver no canto lateral de uma vida qualquer.
E continuamos. Amanhece para as janelas coloridas e atrás de algum barco hei de encontrar a Sheila e o Miguelão de Veronica Stigger, tecendo planos à moda dos melhores dias.
julho 5th, 2007 at 6:51 pm
Neste ano não será possível ir à Flip… Ainda bem que há jornalistas como vocês para nos deixar inteirados dos detalhes… Ai que vontade de estar por aí!!!