Veronica Stigger

veronica_stigger3.jpgNascida na cidade de Porto Alegre em 1973. Formou-se em jornalismo, é mestre em semiótica, doutora em teoria e crítica da arte pela Universidade de São Paulo com estudo sobre as relações entre arte, mito e rito na modernidade e desenvolve um pós-doutorado na mesma universidade. Desde 2001, vive em São Paulo. “O trágico e outras comédias”, seu livro de estréia, foi publicado primeiramente em Portugal, em 2003, pela editora Angelus Novus. Em abril de 2004, foi lançado em versão brasileira pela 7Letras. O segundo livro, Gran cabaret demenzial, acaba de sair pela Cosac Naify. Stigger foi incluída na lista dos 39 autores de menos de 39 anos mais promissores da América Latina, que participarão do encontro Bogotá 39, na capital colombiana, no mês de agosto. O evento é uma parceria entre Bogotá Capital Mundial do Livro 2007 e o Festival de Hay, versão colombiana, que acontece em Cartagena das Índias, do festival realizado na cidade de Hay-On-Wye, no País de Gales, modelo inspirador de outros eventos como a Flip. Veja mais sobre sua participação na Mesa 1.

Fotografia: Walter Craveiro

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Marta e o minhocão

Quando Marta, seu marido, seu primogênito, seu caçula, a mulher do seu caçula, seu neto, seu ex-marido, a namorada do seu ex-marido, os quatro gatos e os dois cachorros da namorada do seu ex-marido chegaram à nova casa, o Minhocão já estava lá. Mas ninguém desconfiava.Quem primeiro descobriu o Minhocão foi o netinho. Como passava os dias chafurdando na caixa de areia do pátio, não demorou muito para dar de cara com aquele anelídeo de grandes proporções, e demorou menos ainda para se encher de amores pelo bicho. Tão logo tomou posse do Minhocão, levou-o imediatamente para dentro de casa. Passou a tratá-lo como um pequeno Moisés encontrado flutuando no Nilo: nanava o Minhocão, fazia comidinha para o Minhocão, dava banho no Minhocão, beijava o Minhocão, conversava com o Minhocão e essas coisas que crianças costumam fazer com minhocas. Vó, olha só o Minhocão no meu popô, dizia ele, enquanto sacudia o pobre Minhocão entre as nádegas.Tirando esse negócio desagradável de ser sacudido entre as nádegas, o Minhocão até que estava gostando da mordomia. Comidinha, colinho, cafuné… Folgado como ele só, não queria mais nada. Passava os dias na rede, sonhando em um dia ter uma pata para poder botá-la no nariz, extrair uma bela porção de ranho e depois comê-lo, como fazia tão prazerosamente seu amiguinho. Só achava que a casa era movimentada demais. Antes, era mais sossegado. Com Marta e sua família, ele não podia nem sestear direito. Tinha muito barulho, muita gente falando e andando, muita música alta, muito bicho, aquele cocker chato que não parava de latir, aquela cadela vira-lata que quase o esmagava toda vez que pulava sobre ele feito uma doente mental, aquele gato preto que queria porque queria comê-lo. Mas, tudo bem, a rede e a privilegiada vista das longas pernas da nora gostosa da Marta compensavam.Bem alimentado e cuidado, o Minhocão começou a crescer e a ficar cada vez mais esparramado. Já não tinha mais paciência para fingir que dormia ou que gostava de banho quando o menino inventava de brincar. Tinha vontade de estrangular o cocker e quebrar as patas do gato preto. E não agüentava mais as implicâncias da Marta. É… A Dona Marta não era moleza e tinha detestado o Minhocão desde a primeira vez que o viu dependurado na bunda do netinho. Enquanto todos o paparicavam, ela o obrigava a beber água da bica. No início, ainda fazia se passar por boazinha: tirava-o da rede às seis da manhã e o forçava a fazer 100 apoios e 200 abdominais, porque isso iria deixá-lo muito bem de saúde. A mesma desculpa era dada quando trocava o pratinho de carne, bacon e ovo frito, preparado com tanto carinho pelo netinho, por outro, só com folhas e chuchu, sem azeite ou sal. Ela realmente não ia com as fuças dele. Para o seu gosto, ele era comprido demais, feio demais, marrom demais e ainda por cima ocupava muito espaço. Depois de um ano de convivência, quando o Minhocão estava do tamanho de um peso de porta, Marta fingia que cortava legumes e tentava, ardilosamente, tirar um naco do traseiro do animal. Marta sonhava aniquilar o Minhocão, liquidá-lo, fatiá-lo, desmontá-lo todinho e doar os pedaços a uma rede de fast food, pois lera na internet que os hambúrgueres eram feitos de minhoca.O Minhocão, por seu turno, não era flor que se cheirasse. Divertia-se fazendo xixi nos escarpins de veludo alemão e escondendo os tubos de tinta loura com que Marta pintava os cabelos. Quando ela vinha lhe acordar, ele sempre dava-lhe um tremendo susto. E quando ela trocava o prato, ele arremessava aquele verde todo na cara dela. Várias vezes, Marta deu com o Minhocão tomando sol, todo besuntado com seu batom vermelho. E era indescritível de tão insuportável encontrá-lo nadando em seu banho de espuma.Mas como eu vinha dizendo, o Minhocão andava de saco cheio não só da Marta, mas de toda a família. Para ele, a rede e a privilegiada vista das longas pernas da nora gostosa da Marta já não compensavam mais. Doutrinou as formigas para que tomassem a casa e convenceu os fede-fedes a morarem nos armários, no meio dos paletós do marido e do ex-marido da Marta. A última do Minhocão era se enfiar de supetão no cu de quem ousasse lhe dirigir uma palavra, um gesto ou mesmo um esboço de contrariedade. O gato preto se mudou para a vizinha. Os outros três fugiam do Minhocão como político de detector de mentiras. O cocker uivava fininho quando sentia aquele desconforto no reto. A vira-lata girava em torno de si revoltada, rosnando enlouquecidamente quando o maldito lhe penetrava por trás. E, assim, ele foi se intrometendo, repetidas vezes, no cu de Marta, de seu marido, de seu primogênito, de seu caçula, de sua nora, de seu ex-marido e da namorada de seu ex-marido (cujos sofrimentos anais faziam Marta gargalhar em segredo). O netinho parecia ser o único que não se importava. Mas, por pudor, ninguém comentava seu não-estar-nem-aí. Já não era mais possível comer à mesa porque os traseiros de todos estavam muito doloridos. Todas as refeições -café da manhã, almoço, chá da tarde, jantar e lanchinho da madrugada- se davam no chão, com todos deitados de lado em torno da toalha, como numa versão chinfrim de um banquete grego. O Minhocão tinha excedido todos os limites. Estava mais do que na hora de lhe dar um basta.Foi a nora gostosa de pernas longas que se lembrou da Baleia-Sem-Cu. Só ela poderá nos libertar do Minhocão, disse. Como a Baleia-Sem-Cu morava do outro lado do mundo, onde não existia telefone e luz elétrica, e os carteiros eram mortos no caminho pela Baleia-Sem-Dente, Marta teve de ir atrás de um nhambiquara-sem-o-dedo-mindinho-do-pé-direito para que este pudesse enviar um sinal de fumaça à salvadora. Depois de um mês e de um encalhe na praia de um estado vizinho, a Baleia-Sem-Cu apareceu na casa de Marta. Todos festejaram sua chegada com acepipes variados e músicas compostas pelo primogênito especialmente para o evento. No dia seguinte, levaram-na até o Minhocão. Este, é claro, roncava na rede. A Baleia-Sem-Cu parou ao seu lado, se ergueu sobre o rabo e entoou um lindo canto que falava em arrancar a cabeça dos inimigos, despedaçar seus corpos e lançar as porções numa fogueira de quatro metros e meio de altura. O Minhocão, sono pesado, continuava pregado. A Baleia-Sem-Cu pegou então um bumbo e deu uma única batida fortíssima próximo ao Minhocão. Ele acordou assustado e atordoado e com muito, mas muito, mau humor. Emputecido da vida, se lançou contra a Baleia-Sem-Cu e tentou penetrá-la, mas em vão: aquela baleia não tinha cu (por isso se chamava Baleia-Sem-Cu). O Minhocão tentou entrar na Baleia-Sem-Cu uma, duas, três vezes. Na quarta, ela se jogou em cima dele, estremecendo todo o quarteirão.

O Minhocão sumiu. Acredita-se que, com o impacto, foi parar no centro da Terra. A Baleia-Sem-Cu retornou para o outro lado do mundo, e a família de Marta pôde voltar a se sentar à mesa. Porém, há quem conte (mas essa gente é muito fofoqueira, não dá para acreditar no que dizem) que Marta sai de casa, às escondidas, todas as madrugadas de terça-feira, levando consigo o baldinho e a pazinha que o neto usa quando vão à praia. Na manhã seguinte, não são poucos os buracos que se somam aos já existentes para atrapalhar ainda mais o trânsito daquela cidade. Mas Marta nunca confessará que sente saudades do Minhocão.

Gran Cabaret Demenzial, São São Paulo: Cosac Naify, 2007, p.34

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ABERRAÇÕES COM SIMPLICIDADE INFANTIL

Veronica Stigger escreve textos tresloucados, bufos, perversos, sobre o cotidiano, como uma criança curiosa a exigir detalhes

Fabrício Carpinejar
Publicado em O Estado de São Paulo
Caderno 2/Cultura, p. 12, 17/06/07.

Se já causava espanto quando Murilo Rubião colocava um dono de restaurante no bolso de seu personagem (O Pirotécnico Zacarias), o que dizer de um casal de intelectuais que passa a morar no rabo de um amigo, a oferecer coquetéis e danças no interior do corpo dele, até ser devorado por uma lombriga?

A articuladora da façanha é a gaúcha Veronica Stigger, em seu segundo livro Gran Cabaret Demenzial (Cosac Naif, 119 págs., R$ 29,50). Ao redor da jovem autora, a aura de ser a novidade da Festa do Livro de Paraty e de ter sido selecionada entre os 39 nomes com menos de 39 anos mais influentes da América Latina pela Feira do Livro de Bogotá.

São 19 textos tresloucados, bufos, perversos, que misturam poemas, contos, dramaturgia, anúncios de classificados e placas de trânsito. Literatura de intervenção, um exercício delicioso mais do que um enigma. Deve incomodar os puristas e incitar as gargalhadas dos incrédulos.

Veronica é inteligente o suficiente para não ser afetada, culta o bastante para não citar (suas referências não interferem no enredo), preparada para não querer escandalizar simplesmente com piadas ou escatologia. Ela trabalha as informações com o efeito da bola de neve, capturando o diz-que-diz de acidentes e causos. Transforma a literatura em fofoca, em vez de fazer da fofoca literatura. Arca com todo o exagero cada vez maior de investir no resultados. Como se existisse uma criança curiosa a cadenciar os parágrafos e exigir detalhes: “O que mais aconteceu?”

O estranhamento produzido seduz, ao contrário de hostilizar. Ela propõe alegorias sobre as aberrações do cotidiano com uma simplicidade infantil. Há o mimetismo da sinceridade de contos de fadas, das lendas, dos mitos indígenas. O que ela narra é atroz, mas com um desembaraço claro e legível, que não parece tragédia. O tema é fúnebre; o tom, cômico.

O normal acentua-se como o diferente. Em Olívia Palito, uma cidade de gabirus com cabeças enormes, desproporcionais, vê o nascimento de bebês compridos e sadios. Isso assusta e põe em alerta a saúde pública. Só que os “compridões” vão sendo gerados com mais freqüência, dividindo a população entre os cabeções e os “olívias palito”. Durante as primeiras brigas das duas facções, um compridão senta no cabeção - e nem preciso contar os detalhes porque o duplo sentido já está implícito. E todos os cabeções querem entrar nos compridões, num ambiente de caça e luxúria. Veronica cria uma lógica dentro do inverossímil. Afinal, não é isso a fábula?

Como um teatro de revista, é desenvolvido um revezamento de esquetes. A adaptação teatral da obra já está naturalmente feita. Identifica-se uma fixação anal. O reto é o centro da leitura - ou seu caminho. Em Marta e o Minhocão, uma enorme família busca se adaptar a uma estranha minhoca que se enfia no ânus de qualquer vivente que ouse falar. Já em Sheila e Miguelão, a perspectiva é de uma patente, que não aceita ser chamada de privada. Arrogante depois de receber decorações de flores, suga todas as bundas que se aproximam.

Como caixas em caixas menores, identifica-se um deslocamento ágil e sempre repentino do ponto de vista macro ao micro, da luneta ao microscópio. A antropofagia segue solta, na libido enrustida da linguagem. Nunca existe um espaço parado, o tempo torna-se espaço. Sempre alguém é sorvido por outro e perdendo seu local de origem. O despejo não é uma ameaça, porém um hábito.

A escritora é Lévi-Strauss sem a antropologia, um Qorpo Santo redivivo, articulando um alto nível de impostura reflexiva, de atitude farsesca. Não que tudo seja possível em seus textos, porque o real não é mais possível. Uma turista é engolida pela escada rolante assistida pelo passivo marido, um velhinho é convertido em árvore de Natal, um par de namorados não consegue sair das engrenagens do carro após acidente. Seria superficial analisar o livro como uma metáfora da sociedade impessoal e insensível. O livro ritualiza o maravilhoso, o insólito e o cruel na literatura. E não pretende soar engajado, e sim cínico, mesmo quando mostra o racismo de uma família germânica.

Um dos motores da obra é a brevidade, que permite o texto surpreender sem enjoar, acelerar o assombro sem sacrificar a espontaneidade. As narrativas apresentam anticorpos contra o marasmo. Quando o leitor está se acostumando, a trama acaba e tem início a seguinte. Ele não consegue se desvencilhar a tempo das ciladas.

Gran Cabaret Demenzial não é órfão de tradição. Além de Hilda Hilst (Bufólicas), penso em Zulmira Ribeiro Tavares e seus ensaios/insights poéticos em Termos de Comparação ou no humor envenenado de Zuca Sardan (Ás de Coletes). Mais ainda em Valêncio Xavier e suas fotomontagens e fotonovelas parodiando os rompantes do amor ou epidemias, como a gripe espanhola. Xavier, por exemplo, tenta decifrar um mistério em Curitiba, ao perseguir o autor de enorme defecção em terreno baldio (Mez da Grippe e Outros Livros). Não é familiar?