Como não falar?
Vou ser franca. É a minha opinião, portanto sinta-se livre para discordar: se você quer aprender a falar de livros que não leu - e que não pretende ler - deve procurar ajuda médica urgente. Um psicanalista talvez possa ajudar? Por que não?
Tive dúvidas sobre ler ou não ler o livro “Como falar dos livros que não lemos?”. Mas eu transformei uma única dúvida em milhares no decorrer de minha leitura. E ao final de tudo, concluo que posso deixá-las todas em alguma gaveta junto com o livro de Pierre Bayard. Por fim, dediquei-me a ler e ouvir algumas entrevistas do autor a jornalistas e descobri que ele nunca teve intenção de propor as conclusões que obtive com minha leitura de seu livro. Também me pareceu estranho a descoberta (através de uma das matérias) de que o narrador do livro é, por coincidência, um professor universitário na França, mas evidentemente não é o autor do livro - trata-se apenas de um personagem, algo como uma estratégia para melhor conduzir a leitura. O livro que eu li como se fosse uma série de ensaios de um professor, era de fato um livro de ficção tratando de ensaios relatados por um determinado personagem. Certo. Sim, eu fiquei confusa com a informação, mas admito que me tranqüilizou.
Então eu de fato não li o livro que pensei ter lido. Enfim, ainda poderia falar sobre ele. Sim, porque é possível (disse o professor imaginário) e até mesmo desejável falar sobre os livros que não lemos. Se alguém quisesse saber minha opinião eu diria que “como?” não seria tão adequado como “por quê?”. E aconselharia uma pequena mudança no título do livro. Acredito que o livro que não li explica muito bem “o porquê” de uma criatura precisar falar daquilo que nunca leu: “leitura não é somente conhecimento de um texto ou aquisição de um saber” (oh, desculpe, concordo plenamente até aqui!), mas a essência de “CFDQNL” está em provar o quanto é importante demonstrar cultura e conhecimento, para além da leitura, passando sobre ela, voando sobre a infinita biblioteca do conhecimento e sabendo exatamente onde encontrar a peça necessária para o discurso convincente nas boas rodas sociais (e viva o Google, então!).
Se eu estiver errada, perdoem-me, eu nem tenho certeza de ter lido o livro ao qual me refiro. Vejo nas margens dele a minha caligrafia em lapiseira nervosa e sei que estou falando de um livro que inventei. Porque é isso que fazemos quando lemos. Os olhos passam sobre aquelas linhas, mas o pensamento vai misturando aquilo que já está dentro com aquilo que se adiciona naquele instante, bate tudo e serve em copos limpos uma outra coisa: um livro novo, inventado, algo que outra pessoa não leu, que você mesmo não vai ler novamente e que vai ser modificado a cada olhar e cada tempo. Ótimo. Para mim é a perfeição. Fiquei horas sobre o capítulo IV lendo e relendo e pensando: como alguém pode me trazer tais referências para me dizer exatamente o contrário do que elas significam para mim?
Mas há uma lição que pode ser tirada do tal coquetel. Entendi. Acho. No epílogo, lá pelo pelos últimos parágrafos eu entendi que se cada leitura pode ser reinventada, e se o que você me contar sobre sua própria leitura de um livro que eu li (ou não li) tem validade por ser o seu próprio modo de ler e reinventar aquilo, então você também tem o direito de inventar e me contar algo sobre um livro que não leu. E a esta invenção chamamos de “um poder criativo”. Serve para tirar você de uma situação constrangedora, serve para você alimentar sua participação numa roda de intelectuais, serve para você ficar bem na foto. Seja como for, Bayard refere-se a tal capacidade criativa como um ingrediente necessário, e mais: “Como negar contudo que falar de livros não lidos constitui uma autêntica atividade criadora, sujeita às mesmas exigências das outras artes?”. Então está bem, deixemos que cada um desenvolva a melhor parte de suas capacidades criadoras. Eu prefiro ler.
maio 16th, 2008 at 15:36
Ane, concordo com você; eu não me arriscaria a falar sobre um livro que não li. Com isso não quero desmerecer o livro de Bayard, justamente porque não o li. Pronto….. agora vou ter que ler o livro.
Quero, contudo, aproveitar o raciocínio que você desenvolveu, e alertar sobre o preconceito daqueles que, sem conhecimento de causa, criticam autores e obras que nunca leram. E o exemplo mais significativo é o caso do escritor Paulo Coelho. Não entendo como as pessoas falam de seus livros sem conhecê-los.
Pessoalmente, digo que li alguns de seus livros; de alguns eu gostei, de outros não. Mas foi somente conhecendo-os que pude emitir um juízo de valor sobre os mesmos. E isso vale para qualquer autor: cada obra sua traz uma nova maneira dele se comunicar com o seu leitor, podendo agradá-lo ou não.
Em termos gerais, considero positiva a avaliação das obras de Paulo Coelho. Além disso, fascina-me a sua experiência no Caminho de Santiago, e que veio fomentar o turismo que havia sido esquecido naquela região há tanto tempo.
Este blog tem sido um grande sucesso desde sua criação. Parabéns aos seus criadores. Então, se alguém da organização da FLIP passar por aqui, fica uma sugestão: porque não convidar o Mago para uma das mesas em 2009?
maio 19th, 2008 at 19:16
Oi, André!
Olha, sobre o assunto que você levanta, eu tenho que dar o braço a torcer e dizer que Bayard aborda essa questão de modo bastante esclarecedor (ao meu ver). Então, fica aí a dica, acho que você vai gostar do livro. Eu, apesar das minhas implicâncias, achei que foi uma leitura interessante pelo menos para causar mesmo algum tipo de questionamento interior.
Nos vemos em Paraty?
Té mais, então!
;o)*
maio 28th, 2008 at 20:00
Ane, desculpe-me pela demora em responder, mas eu não havia reservado pousada e não sabia se conseguiria participar do evento; mas agora tudo está sanado. Respondendo sua pergunta: é claro que nos veremos; vocês tem o número de meu celular, e a gente vai programar alguma coisa por aí. Abraços ao Sérgio.