Literatura feminina, não.
Se não é para falar do rótulo “literatura feminina”, por que alguém trouxe o assunto à baila? Para dizer que não queremos e não suportamos mais tais rótulos. Pode ser. Ou simplesmente para ter um fio condutor entre três mulheres que escrevem. E falam. E fazem. E cada uma diz a que veio. Aí está a mesa “Sexo, mentiras e videotape”, conduzida pelo escritor português José Luis Peixoto (corajoso!). O mediador apresenta as escritoras que vão começar lendo trechos de seus livros: Cíntia Moscovich, Zöe Heller e Inês Pedrosa.

Ao contrário do que se imaginava (eu, pelo menos imaginava isso ao ler a sinopse.), Cíntia não lê trechos dos livros Duas iguais ou Arquitetura do Arco-íris; mas ainda está dentro do chamado “universo feminino” (da mesa, claro) suas linhas em “Por que sou gorda, mamãe?” e foi este o livro escolhido. É um livro espetacular, apetitoso e foi o último lançado por Cíntia. Eu não diria que ele trata do feminino ou do feminismo, mas trata do humano. Se foi escrito pelas pontas dos dedos de uma mulher? Foi. E daí? Fosse homem: um “por que sou gordo, papai?” seria classificado como literatura masculina? Bem, a conversa foi mais ou menos por aí (só não contou com estes bedelhos que eu vou rascunhando em papel aqui debaixo da tenda pouco iluminada, estou calada e sou toda ouvidos). O trecho que Cíntia lê está no capítulo um do livro e fala sobre o codidiano da família judia em torno da comida e da importância disso para as famílias que passaram pela guerra:
“Se havia cinco pessoas na mesa, de bifes deveria haver por baixo, dez. Para que não passássemos pela dureza de medir o que estávamos comendo, quantos bifes são meus, quantos bifes são seus. Se isso acontecesse, papai simplesmente não comia bifes para que mais houvesse para dividir. Numa mesa feliz não se contam os bifes.” E eu aqui com meus botões pensando que de tal parágrafo bem que poderíamos tecer o início de uma tese sobre o papel masculino na literatura feminina. Cíntia prossegue até o final do capítulo que é o que deve ser grudado em geladeiras, armários de cozinha, portas de restaurantes e junto aos números de telefones de tele-entrega: “Gordos são pulsânimes. Gordos são suspeitos de ter caráter fraco e determinação quebradiça. Covardes. Mentirosos. Gordos se escondem para comer. Não têm um pingo de vergonha na cara. Gordos são simpáticos porque nunca serão bonitos”. E não termina aí. A mulherzinha bate forte e sem medo (só lamento pelos que se sentem ofendidos!). Eu me vejo como a gorda que concorda com a moça que pergunta certas coisas à sua mãe. Só não “peguei” direito o ponto em que tais questionamentos fazem desta uma literatura pertencente ao universo feminino. Mas tudo bem: tem a mãe no meio disso. Se você achar que explica, que bom. Eu discordo. E tem mais: se Cíntia Moscovich continuar relatando detalhes sobre a comida de vovó magra, vou escrever um livro para contar “Por que sou gorda, Cíntia?” Experimente fazer dieta e ler um capítulo do livro dela antes de dormir. E então? Isso seria literatura feminina por quê? Não! É simplesmente literatura. Rótulo é excesso.
A leitura da escritora inglesa foi um trecho de seu livro que ficou mais conhecido no Brasil pelo filme “Anotações sobre um escândalo” e trata do envolvimento entre uma mulher de 42 anos e um garoto de quinze, sendo ela uma mulher casada e mãe. Peixoto questiona Zöe sobre não perceber em seu livro uma ortodoxia sexual. A escritora sorri e diz que há mais publicidade que verdade sobre seu livro e avisa aos jovens: é um livro que tem bem pouco sexo. Uma das idéias no livro seria levantar essa questão que existe no discurso popular sobre existência de sexo sujo, ou sexo não sadio. Zöe se opõe às questões muito restritas a respeito disso e diz que: “se você entontra um cordeirinho e quer ter relações com ele, tudo bem, desde que ele consinta”. Salienta que na sociedade contemporânea, se um homem age assim, ele é visto apenas como um predador, mas se quem agir assim for uma mulher, ela é motivo para piadas.
Inês Pedrosa lê um trecho do seu último livro, A eternidade e o desejo em que a protagonista vive as lembranças de um amante que morreu violentamente e reparte seus sentimentos com amigo e companheiro de viagem com quem não tem relacionamento físico: “Temos sensibilidades gémeas, sim - mas não é isso que nos tornará um casal, nunca. Poderia até fazer amor contigo, se não te amasse tanto de uma forma tão envergonhada, transparente, pouco conjugal. O amor físico é feito de desvergonha e intimidade, e eu não posso ser íntima de uma pessoa que é feita de minha própria massa”. Atenção você que está imaginando aqui neste trecho qualquer semelhança com o amor vivido pelos protagonistas de “Fazes-me falta“. Engano seu, segundo Inês, é melhor que leia este livro até o final e descubra por si a diferença (esta foi uma resposta a uma pergunta da platéia). Se há dificuldades em Portugal sobre descrever situações de sexo, Peixoto se dirige à Inês. Ela lembra uma expressão cantada por Caetano Veloso “estou a vir”, que em Portugal é dizer “estou gozando”. Ao cantar, Caetano provocou um mal estar em algumas pessoas porque lá tais manifestações ainda são consideradas estranhas. “Mas é bom lembrar que nós também fazemos sexo em Portugal”, diz Peixoto. Inês Pedrosa rapidamente responde: “Nós não!”. Entre gargalhadas da pláteia, Inês explica a Peixoto que não é nada pessoal. Enfim, em Portugal ainda se fala pouco de sexo, fala-se de tudo, menos de sexo.
Mais de Cíntia. Quando Peixoto questina o fato da narradora dirigir-se a um narratário que é a mãe, sendo que a mãe é uma figura feminina marcante e pergunta quem seriam as outras pessoas para quem ela se dirige - se essas pessoas existem. Cíntia responde (gosto particularmente da introdução “assim ó”, sotaque muito gaúcho!) que na verdade há algo de Kafka em “Carta ao pai” e revela ser uma pretensão idiota, tudo por culpa do Modesto Carone (que traduziu Kafka). Enfim: “claro que eu queria acertar contas com ela, mas não tem mais problema agora porque já escrevi o livro e sobrevivemos!”. Comenta que não foi tão elegante quanto Kafka, afinal: “eu sou mais faca na bota”. No entanto, essa ficção confessional altamente biográfica sempre lhe pareceu desnecessária uma vez que sua vida pessoal não interessa a ninguém. Mas se há um narratário, essa figura a quem o narrador se endereça, deve ser afinal porque todo mundo tem mãe!

E lá vem novamente a questão sobre existir ou não uma literatura feminina (coisa meio chata isso, dá para ver na fisionomia de todos). Inês é direta: não existe. Sobre ela ter dirigido a revista Marie Clair faz questão de reforçar: eu dirigia uma revista feminista e não feminina. A escritora portuguesa acha extraordinário que no Brasil as mulheres não se manifestem a respeito da interrupção da gravidez (bedelho meu: por que chamar assim aquilo que conhecemos pela palavra “aborto”?) e que se submetam aos pastores evangélicos, tendo seus filhos em condições precárias ou sofrendo riscos por conta de clínicas clandestinas (sim, é aí que eu volto a me lembrar do mal falado Vallejo). Homens e mulheres precisam se olhar de igual para igual, segundo ela (pouparei você do que eu penso porque esta é uma questão nada simplista). Peixoto revela o quanto aprendeu com Zöe sobre o trecho em que ela relata a masturbação feminina, algo que era completamente desconhecido para ele. Entre gargalhadas do público, Zöe responde: “estou encantada com sua ignorância, José! Fico feliz em transmitir este conhecimento a você”.
Certo, vamos finalizar esta longa história de mulheres, ok? A mesa foi boa. Sério. Foi boa mesmo! E talvez por ser boa tenha rendido tanto. Então para terminar, Peixoto puxa Clarice Lispector e lembra a necessidade de se conhecer, falar de si mesmo para poder falar do outro ou para o outro. Pergunta: até que ponto conseguimos ou podemos nos afastar de nós para escrever? Cíntia cita algo de Inês: “cada pessoa é uma harmonia de solidão” e completa dizendo que cada um de nós é um abismo e é o conhecimento de tal abismo que nos fornece elementos para trabalhar a literatura porque, enfim, o drama da existência não é tão vasto assim e como disse Quintana: “o pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso”. Então, diz Cíntia, a verdade é que é preciso, sim, buscar o essencial dentro de si, lá nos arquivos na memória e dos afetos para escrever de tal forma que uma solidão se comunique com a do outro.