Na mesa do botequim

Paulo Roberto Pires puxou as cadeiras para Humberto Werneck (à esquerda) e Xico Sá (direita) na mesa “Conversa de Botequim”, no finalzinho de tarde desta quinta-feira. Era de se esperar o toque de irreverência e o papo solto, isso não se pode negar. O botequim abriu com Azulão, composição de Jayme Ovalle com poema de Manuel Bandeira sobre a música. Humberto Werneck está lançando o livro O Santo Sujo pela Cosac Naify, uma biografia de Jayme Ovalle para dizer pouco sobre o livro. Na verdade é um livro que revela o homem, o talento, o momento do país, as situações criadas, os artistas influenciados, a arte acariciada por Ovalle de quem se sabia pouco. E aí todos podiam estar falando sério mesmo, até que Xico Sá diz alguma coisa que faz estourar gargalhadas na platéia. Vai ser assim do começo ao fim.
Werneck lê um trecho do livro, quando Ovalle está em Londres, observando que o inglês foi uma língua que o compositor nunca dominou mesmo tendo morado em N.York por quatro anos. Xico Sá, antes de ler o seu texto, faz uma observação sobre o papel do jornalista-escritor, alguém “que não consegue fazer efetivamente uma coisa nem outra”. Explica que vai ler dois trechos de textos diferentes, um que está no seu computador denominado “trecho flip” e outro que ele gosta mais. Salienta que sua obra pode ser encontrada na Internet e que todo autor deveria ter uma generosidade mínima em deixar circular seu livro (na Internet, por exemplo), para que chegue a conhecimento dos leitores, podendo até render. Sobre a leitura do texto predileto, começa a explicar que se trata de um ponto do corpo humano para o qual não há nome: “aquele entre o cu e a buceta”; sendo imediatamente informado da existência do nome: “Períneo!”, solta Werneck. E com a fisionomia de espanto de Xico, novamente a platéia cai em gargalhadas. E mais gargalhadas durante as leituras e observações de Xico Sá. Unânimes sabemos que essas risadas não foram. Houve quem reclamasse de tamanha ousadia num auditório tão misto. Afinal, quem veio saber sobre Jayme Ovalle talvez não estivesse tão interessado em palavrões ou explicações escatológicas. Mas Werneck segurou a onda e foi adiante com o Santo Sujo - que neste caso é Jayme Ovalle.
E por que Werneck resolveu escrever sobre Ovalle? Porque não havia nada sobre ele, um personagem singular que influenciara vários poetas, músicos, compositores, sem que tivesse deixado uma única obra sua. Jayme Ovalle é um grande artista que não teve meio adequado; teve pouco estudo e uma epilepsia em forma branda. Foi Mário de Andrade quem percebeu o artista e a sua incapacidade de colocar para fora sua arte. Assim, Mário fez com que a arte de Ovalle “vazasse” em algumas conversas de botequim. Sabe-se hoje que Jayme Ovalle influenciou Manuel Bandeira, Dante Milano e chegou a dar-lhes histórias inteiras. Xico Sá lembra que Ovalle chegou a se apaixonar por uma pomba (é sério!) e que ficara desesperado quando descobriu que havia um pombo na vida da pombinha. Mais risadas. A conversa de botequim rendeu. Mesmo para quem não gosta de períneos… ou nem sabia que não gostava.
Botequim com Santo Sujo não poderia ser uma mesa totalmente inocente, mas foi interessante. E para quem não quer conhecer o tal pedacinho do corpo humano: esqueça isso e vá ler O Santo Sujo, um livro belíssimo!