Ramil em matérias

Matéria publicada no Mundo Livro, coluna de Carlos André Moreira, editor de livros do Jornal Zero Hora.

Terça-feira, 03 de junho de 2008
Névoa, umidade e imagens

No segundo Caderno desta quarta-feira vocês podem encontrar uma matéria de capa sobre Satolep, romance do escritor e compositor gaúcho Vitor Ramil que é sua segunda incursão na prosa narrativa, depois da novela de corte memorialístico Pequod. Satolep sai pela prestigiada Cosac Naify e Vitor lançará o livro em Pelotas, na sexta-feira dia 13 (às 19h no bistrô da Secretaria Municipal de Cultura, Praça Coronel Pedro Osório, 02, telefone 53 3225-8355), em Porto Alegre no sábado, dia 14 (às 19h na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country, Avenida Túlio de Rose, 100 - Loja 302 - Tel 51 3028-4033) e, no início de julho, em Parati, na Flip, para o qual é um dos autores da Cosac com presença confirmada.

Satolep é um livro ao qual Vitor dedicou oito anos de laboriosa manufatura para contar a história onírica de um fotógrafo que, em um tempo indefinido nas primeiras décadas do século 20, volta a Satolep, essa cidade recorrente nas ficções e nas canções do autor, seu terreno particular de invenção e memória. Sua Pelotas (ao avesso) inventada.

Ramil faz uso de uma prosa vagarosa, que infiltra o que está narrando em seu leitor aos poucos, quase como a névoa úmida que ele descreve como símbolo dessa identidade difusa de Satolep, a cidade. São duas instâncias narrativas que convivem na prosa do romance: uma série de curtos textos poéticos (quase contos, inspirados nas imagens de um álbum de fotos da Pelotas de 1922, um livro real, da Pelotas real, organizado por Clodomiro Carriconde) e a história propriamente dita, um homem em princípio desconhecido e sem nome que decide, de inopino, ao se ver sozinho e inadaptado às vésperas de completar 30 anos no desconfortável sol do Norte do país, voltar para o frio de sua Satolep natal

Ao chegar, também por impulso, o homem, que mais tarde saberemos ser um fotógrafo, algo que vai ligá-lo, de muitas formas, às fotos que estamos acompanhando aos poucos, resolve agir como um visitante estranho, aluga uma casa no centro da cidade e vai redescobrindo a si mesmo e a Satolep (saberemos ao fim que essa é apenas um nível da busca do narrador, mas mais não conto para estragar a surpresa. Nesse caminho, o fotógrafo cruza o caminho de gente “real” da Pelotas em que Vitor nasceu, como João Simões Lopes Neto e Lobo da Costa. Embora não haja datas na narrativa, a presença do autor de Contos Gauchescos situa o começo da história lá por 1916, enquanto as fotos são de 1922, como já dito, e é nesse intervalo impreciso como a névoa de Pelotas que o romance se desenrola até o final de impacto.

Conversei com Vitor Ramil por telefone para a matéria que você lerá nesta quarta, então deixo abaixo trechos das declarações de Vitor que não foram para a página por falta de espaço. Divirtam-se:

O Livro
Minha idéia era um pouco marcar uma imprecisão, algo esquivo, que foge do leitor. Essa estética é minha maneira de escrever, natural, se parece com a maneira com a qual eu componho minha música, também. Venho depurando essa forma há algum tempo, e ela está presente também no Pequod. Os dois livros se situam no mesmo lugar e têm histórias familiares, essa é a relação entre ambos. Mas no Satolep eu queria que a sugestão formal do texto viesse da própria cidade, essa névoa, esse dado de imprecisão, essa coisa que tá sempre escapando do leitor tanto em termos de trama como de texto mesmo, e por outro lado isso se confunde um pouco com a questão poética, mas tem também… é um texto bastante rigoroso, a escolha de palavras é pensada. É um texto claro e geométrico. Satolep é uma cidade planejada, com ruas retas, que se cruzam, arquitetura rebuscada, mas num ambiente de névoa, umidade, terreno alagadiço. Eu fico sempre dando ênfase a esses extremos.

Os personagens reais e o tempo
As fotos que compõem parte do livro são de 1922, e bem conhecidas aqui em Pelotas. Apesar desse dado cronológico, nunca quis fazer menção ao ano da narrativa. Queria que o tempo ficasse em aberto, não me preocupei em datar. Claro que eu não coloquei um computador na história, ela se passa no passado, mas quis deixar essa datação no ar, situando a narrativa em um tempo no qual alguns dos personagens de Pelotas estavam todos por lá, João Simões Lopes Neto, Lobo da Costa, Francisco Santos, cineasta que foi autor de um dos primeiros filmes longos do Brasil. E eu aproveitei isso para fazer no romance todos esses caras, inclusive o fotógrafo que talvez seja o fotógrafo Brisolara, também real, se cruzarem, mas sem caráter documental. Eu jogo com o tempo, com inversões de tempo.

Pelotas
Era importante deixar em aberto também a cidade. Não fixar Satolep como a Pelotas de 1922, por exemplo, mas também não deixar de mostrar essa Pelotas do passado que é a base. Não deixar de protestar, de fazer uma crítica à Pelotas real, a essa Pelotas que já não existe por nossa própria culpa, pelo nosso descaso, não só de Pelotas, mas pelo descaso geral do Brasil à preservação da história. Muita gente lá em São Paulo que trabalhou no livro via as fotos e ficava chocado: “então Pelotas já foi assim?”. Para mim que sou um apaixonado pelas coisas antigas, essa questão tinha muita relevância.

Satolep e Pequod
Eu queria que o Pequod tivesse a forma da memória. A memória é estranha nesse sentido, às vezes a gente acha que viveu algumas coisas e não viveu, ou viveu e não lembra. As coisas não se encadeiam de uma forma sincrônica, eu trabalhava o texto buscando isso. Com o Satolep, as fotos foram a origem do livro. Fui escrevendo pequenos textos separados, como contos que as fotos contavam, Essa fotos são bem conhecidas em Pelotas, de um álbum de 1922, organizado por Clodomiro Carriconde, e não tem o nome do fotógrafo nelas. Eu comecei o texto buscando essa coisa original do retrato ficcional da cidade pelas fotos. Mas eu não cabia naquele formato tão curto, surgiu a necessidade de algo mais longo, e aí foi se formando a idéia de um texto como a fala de um personagem que quer recuperar a si mesmo Isso seria mais original ainda. Porque ficaria uma estrutura extremamente aberta. E assim cheguei a essa narrativa longa que costura fotos e textos.

Simões Lopes Neto
Ele surgiu naturalmente ao desenvolver a narrativa, e quando ele aparece na história, ele imediatamente domina o romance pela personagem fabulosa que foi. Ele logo morre na história, mas permanece presente. Ele era o nome perfeito para representar essa jornada em busca da condição de artista. Ele mesmo, o João Simões, diz no livro que hesita em se chamar “artista”, e realmente, é algo desconfortável assumir a si mesmo como artista. E o João Simões vai, então, se meter em uma série de empreendimentos que fracassam todos. Porque na verdade a vida do artista que ele já era o fez ter hábitos e um ritmo de vida diferente das pessoas normais. Se hoje isso toca aos artistas contemporâneos, imagino que ele deve ter sofrido isso muito mais, numa cidade do interior em 1922. Ele morre cedo, talvez depois de haver assumido esse lado artista ele tivesse muito mais a desenvolver.