Opiniões e matérias
BBC de LONDRES - 2007 | Entrevista: Chimamanda Ngozi Adichie
Molara Wood entrevista a escritora nigeriana, Chimamanda Ngozi Adichie, autora de ‘Half of a Yellow Sun’, indicada para o prêmio Orange 2007.
Eu entendo que você viu pela primeira vez a edição de ‘Half of a Yellow Sun’ no Festival de Livros de Edimburgo em 2006?
Eu gostei de mim mesma no festival. Mas Edimburgo foi menos sobre o evento do que sobre ver o livro pela primeira vez. Eu estava quase em lágrimas. Todas aquelas semanas e meses que não dormi, lá estava o resultado. Foi um momento realmente emocionante.
Foi diferente de como você se sentiu na publicação de sua primeira novela, Purple Hibiscus?
Eu realmente não questionei Purple Hibiscus, mas você pode dizer que questionei Half of a Yellow Sun. Eu sabia quanto trabalho tinha colocado em Purple Hibiscus, quão difícil tinha sido conseguir um agente. Então foi memorável naquele sentido. Eu ainda olho para a primeira edição que saiu com um sentimento especial. Dito isto, eu não tinha realmente qualquer expectativa. Lembre que quando o livro foi publicado eu estava preparada para ser ignorada. Então sou orgulhosa e grata por tudo que aconteceu com aquela novela. Eu amo Purple Hibiscus; é um livro que escreveria novamente.
Você pode relatar este sentimento de orgulho para a publicação de Half of a Yellow Sun.
Half of a Yellow Sun é muito mais importante no sentido de que não pertence exclusivamente a mim. É diferente porque, entre outras coisas, vai além de qualquer sentimento de realização pessoal. Half of a Yellow Sun que senti que tinha que escrever, de um modo que mal posso descrever. Estava feliz de vê-lo ao menos pronto, porque sei como foi difícil escrever.
Quanto tempo levou para escrever o livro?
Levei quatro anos para concluir o trabalho atualmente concentrado. Como disse, já sabia que tinha que escrevê-lo muito tempo antes, então comecei a trabalhar nele logo após terminar Purple Hibiscus. Eu sabia que queria Half of a Yellow Sun fosse um livro com vários personagens e perspectivas. Guardei a maior parte dos rascunhos iniciais do manuscrito, porque Binyavanga Wainaina (vencedor do Caine em 2002) me diz que quando tiver 60 anos, aquilo pode valer algo!
Você ganhou o prêmio David T. Wong por uma história curta, Half of a Yellow Sun - também sobre a guerra da Biafra. A novela é um meio de desenvolver a história?
A história Half of a Yellow Sun foi realmente um meio de dar pequenos passos. Não estava sozinha. Explorei o tema da guerra de Biafra em outras histórias curtas. Minha história,‘Ghosts’ (Fantasmas) também fala sobre a guerra, assim como ‘That Harmattan Morning’. Então ao meu ver estive preocupada com isso em minha ficção por algum tempo, e neste âmbito a história curta é de algum modo similar. Dito isto, a novela é bastante diferente da história. Os personagens são diferentes; também há diferença em como penso em minha abordagem para o trabalho. E depois há o objetivo, que é muito maior. É uma enorme lona. É sobre como as pessoas mudam.
Como você procede para mostrar essa mudança nas pessoas?
Eu queria que os personagens dirigissem a ação por si próprios. Há o estrangeiro, no personagem de Richard. Depois Olanna e Kainene, nigerianas ricas e Odenigbo, o acadêmico e finalmente Ugwu, o houseboy que é a alma da novela. Quando os vemos imersos na guerra nós sentimos por eles, porque já conhecemos intimamente cada um.
Como foi para você, a escritora, criar estes personagens?
Houve momentos que senti que o personagem me abandonava - Olanna em especial - então tinha que voltar e tentar ouvir o mesmo. Atravessei uma série de dúvidas internas e nervosismo. Acho que no fim foi uma coisa boa. Também, sou muito teimosa. Foi um trabalho muito difícil de fazer, mas senti que valia a pena.
Você desfrutou de grande sucesso, começando com a obra amplamente aclamada Purple Hibiscus. Isso levantou expectativa, em relação ao que você faria depois. Você sentiu essa pressão enquanto trabalhava em Half of a Yellow Sun?
Eu não estava pensando conscientemente no sucesso, falha ou pressão. Uma mulher na BBC me perguntou: como é ser você? Eu não tinha resposta, porque sou apenas eu. Eu não penso sobre uma outra pessoa pública além. Sobre a pressão, é claro, houve nervosismo enquanto estava trabalhando em Half of a Yellow Sun, mas era mais em relação ao modo como faria o livro. Eu sabia que se falhasse, não faria justiça a um assunto extremamente importante. Não queria escrever um livro polêmico para me promover. É tão fácil entender de maneira equivocada.
Você esteve trabalhando em Half of a Yellow todo o tempo, ainda assim manteve uma forma impressionante em publicações de histórias curtas.
As histórias curtas publicadas - aquelas foram as vezes em que Half of a Yellow Sun estava se recusando a trabalhar. Eu dava um tempo escrevendo uma história curta. Além disso, sempre escrevi ficção curta. Histórias curtas são meu refúgio. Às vezes escrevo ensaios também, geralmente porque pessoas me pedem. Não conheço nada sobre música, e ainda assim consegui escrever algo para um jornal americano sobre música! Eu reconheço, é claro, que ensaios são boa publicidade se você tem um livro à venda.
A guerra de Biafra relembra um assunto doloroso na Nigéria, ainda sob muita contenda. Poderia Half of a Yellow Sun provocar divisão dentro do contexto nigeriano?
Biafra é um tema sobre o qual não somos honestos, não falamos sobre. Deveríamos estar perguntando POR QUE a guerra relembra uma ferida. Eu recebi algumas respostas de leitores nigerianos defensivos que perguntaram - oh, você não escreveu sobre as pessoas que sofreram em Lagos. E alguns leitores ibos que dizem - oh, por que você não mostrou nossas dificuldades também? Mas o que me deixa mais feliz é receber a resposta dos nigerianos, ibos e não ibos, que acharam o livro significativo e que o leram sem impor suas próprias noções pré-concebidas. Há simpatias de Biafra pelas quais não me desculpo mas isso não romanceia a guerra e o que tentei fazer foi manter o ângulo humano na narrativa da história.
O que você espera para Half of a Yellow Sun?
O que espero que esse livro faça na Nigéria é instigar o leitor a examinar nossa história e levantar questões. Espero que minha geração de nigerianos fale sobre este período. Além disso, só quero que o livro seja lido. Espero que pessoas de todas as partes o leiam.
O que você está fazendo agora?
Estou fazendo uma semana de workshops em Lagos e Enugu neste verão com nigerianos comuns interessados em escrever, e meu amigo escritor do Quênia, Binyavanga Wainaina, graciosamente concordou em vir ensinar junto comigo. Estou pensando no próximo livro, trabalhando em ficção curta e lutando para entender os textos acadêmicos que venho lendo!
Pouco após essa entrevista, Chimamanda Ngozi Adichie venceu o prêmio Orange em Londres.
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CBC RADIO - Canadá | 25.10.2006
A História Não Contada
A Novelista Chimamanda Ngozi Adichie Investiga a Guerra Civil da Nigéria
Por Rachel Giese
Qualquer um que tenha crescido na América do Norte no fim dos anos 60 vai lembrar de ter sido persuadido a terminar seu jantar com o lembrete carregado de culpa de que “há crianças morrendo de fome na África”. Essas crianças eram ibos, cidadãos da nação de independência curta da Biafra, que se separou da Nigéria em 1967 durante uma sangrenta guerra civil. Nos três anos seguintes, mais de um milhão de civis morreram, em sua maioria de fome. Imagens em jornais e na televisão de crianças de olhos profundos e com os abdomes dilatados chocaram os habitantes do Leste.
A crise ficou conhecida como o momento decisivo da ação humanitária moderna, inspirando a criação do grupo de ajuda internacional Médecins Sans Frontières (Médicos Sem Fronteiras). A guerra da Biafra foi a Ruanda de seu tempo: tensões étnicas de longa duração entre os ibos e os hausas, povos Fulani e Ioruba foram exacerbados por anos pela lei européia e pelas fronteiras estabelecidas arbitrariamente pelos colonizadores.
Chimamanda Ngozi Adichie sempre soube que escreveria uma novela sobre a Biafra. Seu pai e sua mãe, ibos acadêmicos de classe alta, perderam os pais durante a guerra, assim como tudo que tinham conquistado. A autora nigeriana-americana de 29 anos nasceu sete anos após a guerra, mas o cenário sempre esteve presente em sua imaginação. Aos 16, escreveu o que diz ser “uma terrível peça” intitulada For Love of Biafra (Por Amor à Biafra). Isso teria ocorrido uma década antes de retornar ao assunto para compor seu novo e sensacional livro, Half of a Yellow Sun (Meio Sol Amarelo).
“Eu não aprecio a parte de pesquisa da escrita”, ela diz, durante uma breve parada em Toronto em setembro, “mas passei dois anos pesquisando sobre o assunto. A Biafra ainda é muito controversa. Não queria escrever um livro que pudesse ser facilmente dispensado por não contar os eventos históricos corretamente. Mas também não queria escrever algo enfadonho. Espero sinceramente que se este livro fizer algo, que alcance minha geração e a faça conversar sobre a nossa história. Porque não fazemos isso”.
Com uma visão sombria e fragmentada da violência e da fome, a novela começa alguns anos antes da guerra, durante os dias otimistas iniciais da Nigéria recém independente da Inglaterra. Ugwu, um jovem aldeão, parte para a cidade universitária de Nsukka para trabalhar como houseboy para Odenigbo, um professor de matemática radical e esquentado apaixonado por Olanna, a bela e voluptuosa filha de um abastado homem de negócios.
O casal convive num círculo privilegiado de mentes acadêmicas com ideais comuns, conspirando por uma revolução entre coquetéis e música erudita. Entre eles está Richard, o namorado inglês idealista de Kainene, a irmã gêmea legal e pragmática de Olanna. De tempos em tempos, os pais obcecados pelo status de Olanna e Kainene os convidam para a alta sociedade da Nigéria, um meio que Adichie alfineta com grande deleite.
“É uma vida tão fechada em si mesma, na qual as pessoas na se importam com os problemas sociais maiores”, comenta Adichie sobre a elite nigeriana.
Essa postura idílica contrasta drasticamente com o que está por vir. Depois que o aumento da opressão os leva a estabelecer a Biafra - levando as ricas reservas de óleo no sudeste do país com eles -, os ibos acabam famintos e massacrados até a submissão pelo exército da Nigéria. Adichie caracteriza este período com alto grau de detalhamento.
Entre os incontáveis horrores, há uma cena de Olanna em um trem repleto de refugiados, sentada ao lado de uma mulher que carrega a cabeça decapitada de sua filha dentro de uma cabaça: “Ela viu a cabeça da pequena menina com a pele acinzentada e cabelos trançados e olhos revirados e boca aberta. Ela observou aquilo por um tempo. Alguém gritou. A mulher fechou a cabaça. ‘Você sabe,’ ela disse, ‘demorei tanto tempo para trançar esse cabelo. Ela tinha o cabelo tão grosso’”.
A novela é bravamente ambiciosa, narrando um período feio que relembra um tabu na Nigéria e abraça questões de moralismo, raça, classe, lealdade e amor. Supera até mesmo o brilhantismo da primeira obra de Adichie publicada em 2003, Purple Hibiscus, a qual foi listada para o prêmio Orange e ganhou o prêmio Commonwealth para escritores na categoria Melhor Primeiro Livro. Por Half of a Yellow Sun, Adichie recebeu uma sinopse do mais célebre autor nigeriano, Chinua Achebe, que se entusiasmou com Adichie em termos que ainda a fazem corar: “Nós não associamos usualmente sapiência com iniciantes, mas aqui está uma nova autora agraciada com o dom dos antigos contadores de histórias… Adichie veio praticamente pronta”.
A aclamação foi recebida com uma certa sobrecarga, contou a autora.. “Fico desconfortável com freqüência com a posição em que minha escrita me coloca. Porque, como escritora, minha primeira responsabilidade é com minha arte. Mas às vezes, penso que isso é muito fácil de dizer. Porque cresci na Nigéria com a história que tenho. Sou uma mulher negra africana que escreve uma ficção realística, e ao fazer isso, há um papel político que emerge. E é minha responsabilidade aceitá-lo”.
Tal responsabilidade a tornou um pouco prudente. Ela confessa que é tão anti-social que “na época em que tiver 50 anos, provavelmente me tornarei inteiramente reclusa”. Contudo, mesmo com o estresse de prestidigitar um book tour e do início do semestre de outono na Yale - onde ela está se especializando em História Africana - Adichie é volúvel e enérgica. Com seus olhos castanhos amendoados e pele perfeita, ela também é, como sua personagem Olanna, “ilogicamente bonita” - um ponto de venda que seu publicador ressaltou.
“Quando digo a ela que a linha do assunto do e-mail que seu publicitário enviou para mim foi ‘Jovem, Brilhante e DESLUMBRANTE!’, Adichie cobre o rosto com as mãos e diz, com seu sotaque britânico amanteigado, ‘Oh, Deus, ninguém me disse isso’. Quando especulo sobre a conexão entre a beleza de Olanna e a sua própria, ela descarta a sugestão com uma forte risada. ‘Isso é lisonjeante, porque Olanna, para mim, é a mulher perfeita. Eu amaria me parecer com ela… Eu me lembro de quando estava crescendo ter escutado pessoas dizerem que eu era bonita, mas sempre preferi quando diziam que eu era esperta. Sempre digo que muito antes de saber o que significava feminismo, eu já era ferozmente feminista… É claro, que ouvir que sou bonita também tem significado. Sempre digo que sou o tipo de feminista que gosta de passar batom’”.
Ela também é o tipo de feminista que gosta de escrever sobre sexo. A novela é repleta de cenas passionais entre Odenigbo e Olanna, que vão para a cama com a mesma freqüência com que debatem política. “Eu quis escrever sobre sexo do modo como escrevo sobre a guerra”, disse Adichie. “Para olhar na sua face e não usar uma linguagem vaga. Acho que é real no senso que enquanto as bombas estão caindo, as pessoas estão amando. As pessoas seguem com a vida. A meta era humanizar meus personagens. Queria que o leitor lembrasse que estas pessoas tinham vidas inteiras antes da guerra”.
Tão arrojada quanto possa soar, Adichie ainda inquieta-se com a forma como seu pai vai receber as cenas de sexo explícito da novela. “Eu adoro meus pais, eles sempre me apoiaram”, ela diz, mesmo quando decidiu desistir de um lugar cobiçado na escola de medicina para se tornar escritora. (”Medicina é uma profissão nobre” diz Adichie, “mas eu seria uma doutora muito infeliz”.) Sua mãe orgulhosa guarda uma caixa de cópias de Purple Hibiscus na mala do carro para distribuir para estranhos, e seu pai está lendo Half of a Yellow Sun, que acabou de ser publicado na Nigéria.
“Ele não me disse nada ainda, mas disse ao meu irmão que achava que era melhor que Purple Hibiscus. Tudo que consigo pensar é que meu pai está lendo meus escritos sobre sexo”.
Rachel Giese escreve sobre artes para a CBC.ca
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THE NEW YORK TIMES | 23.09.2006
Uma Autora Nigeriana Olhando Incansavelmente para o Passado
Por Charles McGrath
A nova novela de Chimamanda Ngozi Adichie, “Half of a Yellow Sun”, acontece na Nigéria, sua nação de origem, durante o fim dos anos 60 e início dos 70, quando a guerra civil emergiu conforme o Estado de Biafra tentava se emancipar e foi então forçado a submeter-se. Incontáveis famílias foram desenraizadas, incluindo a sua própria, e centenas de milhares de cidadãos passaram fome até a morte, ou morreram enfermos, ou foram assassinados.
Tudo isso acontece antes do nascimento da autora, que acaba de completar 29 anos, mas ainda assim ela escreve sobre o assunto com profundidade e vivacidade inabaláveis.
“Minha família me diz que preciso envelhecer”, ela disse numa entrevista recente. “Este é um livro que eu tinha que escrever porque é a minha maneira de enxergar essa história que me define. Escrevê-lo levou quatro anos, mas estive pensando sobre este livro durante toda a minha vida”.
Sobre as divisões étnicas que foram largamente responsáveis pela guerra e que persistem até hoje na Nigéria, ela complementou: “A Nigéria foi realmente feita para falhar. A extensão da falha é o que temos que aceitar como responsabilidade, mas não fomos estabelecidos para o sucesso”.
A quinta de seis filhos, Adichie cresceu em Nsukka, uma cidade universitária, onde sua mãe exercia um cargo administrativo e seu pai lecionava Estatística. A família vivia numa casa anteriormente ocupada pelo grande novelista nigeriano Chinua Achebe, cujo trabalho ela começou a ler quando tinha apenas 10 anos.
“Foi a ficção de Achebe que me fez perceber que minha própria história poderia estar em um livro”" ela disse. “Quando comecei a escrever, escrevia histórias sobre Enid Blyton, embora nunca tivesse ido à Inglaterra. Não pensava que fosse possível para pessoas como eu aparecer em livros”.
Embora ela escreva praticamente desde quando é capaz de se lembrar, e mesmo tendo publicado um livro de poesias aos 16 anos - “muito ruim, poesia horrível”, ela diz hoje -, Adichie começou a estudar Medicina porque, como explicou, “se é bom aluno na Nigéria, todos esperam que se torne um doutor”.
Principalmente para se afastar dos seus estudos de Medicina, a autora se mudou para os Estados Unidos em 1997 - primeiro para a Filadélfia e depois para Connecticut, onde sua irmã estava morando. Enquanto estudava na Universidade Estadual do Leste de Connecticut, em Willimantic, ela escreveu sua primeira novela, “Purple Hibiscus”, que foi nomeada para o prêmio Orange (2004) e em 2005 ganhou o prêmio Commonwealth para escritores, na categoria Melhor Primeiro Livro.
“Purple Hibiscus” é de certa forma uma história convencional que vem com a idade, sobre o despertar sexual e moral de um adolescente tímido e estudioso, mas é focado através de duas lentes não usuais. Em primeiro plano, algumas vezes dominando a história da maneira como ele domina sua família, está o pai do narrador. Ele é dono de uma fábrica, publicador de um jornal e um herói público, mas também um tirano privado, um convertido ao catolicismo romano tão fanático que tortura seus filhos pelas menores transgressões.
E em segundo plano está sempre presente um tumulto político e a incerteza, uma permanente atmosfera de opressão que a autora afirma ser componente do regime de Babangida do fim dos anos 80 e a ditadura Abacha dos anos 90.
“Half of a Yellow Sun”, obra à qual Janet Maslin se referiu como “instantaneamente cativante” em sua matéria para o The New York Times, é baseada em eventos reais e é maior e perdedora em estrutura que seu predecessor. É contada principalmente sob três pontos de vista: o de Ugwu, um houseboy do interior que vai trabalhar na casa de um professor radical; Olanna, a namorada sexy, e educada em Londres, do professor; e Richard, um homem branco que é sensível e bem intencionado, mas também um pouco misterioso e ineficaz.
O livro começa como uma espécie de comédia social e não obscurece até o início da guerra. O empregador de Ugwu, por todo o seu radicalismo, porta-se um pouco como um mestre colonial, chamando seu houseboy por “meu bom homem”, e Ugwu, ansioso para agradá-lo, responde queimando as meias de seu mestre enquanto tenta passá-las. Há visitas da mãe e do pai de Olanna, um homem ridiculamente endinheirado, e da mãe do professor, que é contra seu relacionamento com a moça, e a cumprimenta dizendo “ouvi dizer que você não mamou nos peitos de sua mãe”.
“Eu não queria apenas escrever sobre os eventos”, diz a autora. “Queria colocar uma face humana sobre eles. E também quis explorar a classe - de fora e de dentro - e como a guerra muda tudo”.
Ela fez uma grande quantidade de pesquisas, mas jogou grande parte fora. Sua fonte principal foi seu pai, que perdeu quase tudo durante a guerra - sua casa, livros, seu próprio pai. Na época da entrevista ele tinha acabado de começar a ler “Half of a Yellow Sun”. A autora estava bastante segura de que ele aprovaria sua manipulação da história, mas estava um pouco preocupada como sua reação às cenas sexuais do livro.
Agora que o livro está terminado, Adichie vai voltar aos estudos, envolvendo-se num programa de mestrado em História Africana na Yale. “Pensei que era tempo de finalmente estudar a África”, ela declarou, complementando: “tenho certeza de que vai aperfeiçoar minha escrita”. E disse que pressupôs dividir seu tempo eventualmente entre a Nigéria e os Estados Unidos, onde ela está aprendendo aos poucos a se sentir em casa.
“Quando cheguei aqui, estava apavorada. As pessoas comem enquanto andam na rua. Meus professores iam sentar no gramado com seus alunos e comiam um sanduíche. Você jamais veria isso na Nigéria”, disse.
Mas recentemente, declarou a escritora, ela espantou-se com si mesma ao começar a se sentir na defensiva em relação aos Estados Unidos: “A América é como um tio muito rico que não sabe na verdade quem você é”, comentou. “Você não pode ajudar sendo afeiçoado a ele”.
Traduções: Fernanda Nunes







