Opiniões e matérias

Matéria publicada em 29/12/2007 no Jornal O Globo
Caderno Prosa & Verso

Por Miguel Conde

Foram necessários oito anos para que chegasse ao Brasil um dos mais talentosos novos escritores americanos. Nathan Englander lançou “Para alívios dos impulsos insuportáveis”, seu livro de estréia, em 1999, aos 29 anos. Empolgada, a crítica o comparou a Isaac Bashevis Singer e Bernard Malamud, reconhecendo nos nove contos do livro um principiante que escrevia como um artista já maduro. Só agora, porém, o livro chega ao Brasil, pela Rocco. Na capa do Prosa & Verso de 29/12, a última edição do ano, o repórter Miguel Conde resenha o livro de Englander. Por telefone, de Nova York, o escritor dá ainda uma entrevista em que fala sobre sua conversão do judaísmo ortodoxo ao secularismo, e explica por que demorou dez anos trabalhando em seu segundo livro, o recém-lançado romance “Ministry of special Cases”.

Nathan Englander nunca foi um “autor promissor”. Seu livro de estréia, publicado nos EUA em 1999 e agora finalmente lançado aqui pela Rocco, mostra um principiante que aos 29 anos já escrevia como um artista maduro. Os contos de “Para alívio dos impulsos insuportáveis’ parecem obra de um escritor tão seguro de sua visão de mundo quanto de seus recursos expressivos.

A imagem mais ou menos consensual que a imprensa americana construiu para Englander é a do garoto prodígio que saiu do yeshiva - escola religiosa judaica - para escrever como um mestre. Como vários mestres, na verdade: resenhistas mencionaram, entre outros, Bernard Malamud, Isaac Bashevis Singer, Philip Roth, Franz Kafka e John Cheever. 0 típico salseiro referencial utilizado pelos críticos para expressar sua perplexidade diante de autores realmente originais.

Nos comentários sobre Englander é recorrente porém a observação de uma aparente “modéstia” narrativa, uma contenção em tudo distinta dos estilos ostensivamente anárquicos, idiossincráticos, de seus companheiros de geração. No “New York Times”, Will Blythe identificou na voz do autor uma “impessoalidade” que poderia ser lida como uma homenagem à própria tradição judaica que, em seus enredos, ele parece rejeitar. Homenagem ou não, a impessoalidade é visível nos contos de “Para alívio dos impulsos insuportáveis”, escritos com uma voz neutra e distanciada que lhes confere uma qualidade quase mitológica.

Autor foi criado numa comunidade de judeus ortodoxos em Nova York

No entanto, estes contos não se passam, como os mitos, num tempo fora do tempo. Englander é um estilista obsessivo - passou dez anos trabalhando em seu segundo livro, o romance recém-lançado “Ministry of special cases” -, mas não procura no texto um refúgio da História. 0 primeiro e o segundo conto de “Para alívio dos impulsos insuportáveis” tratam, respectivamente, das execuções na Rússia stalinista e dos campos de concentração nazistas. Outras narrativas exploram conflitos do judaísmo com o mundo moderno, caso das farsescas “Rabi Noel”, sobre um rabino que trabalha como Papai Noel numa loja de departamentos, e “0 gilgul da Avenida Park”, sobre um financista nova-iorquino que um dia “percebe”, subitamente, ter uma alma judia.

Nascido numa comunidade de judeus ortodoxos em Long Island, segundo ele “um gueto” em plena Nova York, Englander constrói personagens às voltas com restrições impostas por esposas, maridos, rabinos, psicólogos, ditadores, amigos, a comunidade. Confrontados com limites opressivos, eles desejam, mas também temem, a transgressão.

” Se você olha para um escritor como Philip Roth, ele estava tentando ser americano. Suas histórias são sobre passar para o outro lado, ser aceito. Essa é a geração dos meus pais. Não é como fui criado. Na minha geração, eles já estavam estabelecidos e nos criaram como judeus, dizendo: “não se misture, não vá à sociedade”. Acho uma boa comparação quando me associam a Singer ou Malamud. Posso sentir essa excitação em toda escrita deles, essa idéia do mundo mais amplo, da alegria do mundo. Isso me interessa”, diz o escritor ao GLOBO por telefone de Nova York, onde voltou a morar em 2001, após cinco anos em Jerusalém.

As histórias, diz Englander, refletem seu próprio embate com o judaísmo ortodoxo, e sua posterior “conversão” ao secularismo. Curiosamente, no entanto, elas não trazem as marcas típicas das narrativas de formação. Seus personagens, sim, são tomados por dúvidas, indecisão, impulsos de mudança. Esses afetos, porém, não são incorporados à narração. Mesmo nos momentos de maior comoção, preserva-se uma espécie de estabilidade emocional.

É o que acontece em “Os acrobatas”, no qual um grupo de judeus a caminho do campo de concentração é confundido com artistas de circo. Para escapar da morte, eles improvisam um espetáculo desastrado. Diante do escárnio da platéia (”Olhem! Eles são tão trapalhões quanto os judeus’), um deles abandona o palco. No escuro dos bastidores, longe dos holofotes, ele vira “as palmas das mãos para cima, simplório.” 0 narrador conclui: “Mas não havia franco-atiradores, como há para as mãos que se erguem dos guetos; nem cães, como há para as mãos que se estendem das frestas dos vagões de trem; nem anjos esperando, como sempre fazem, pelas mãos que se levantam das chaminés para os céus anuviados de cinzas”. “Como sempre fazem”, a súbita idéia de rotina inserida no meio da descrição de uma monstruosidade, é o detalhe que salva o parágrafo do sentimentalismo, muda seu registro do lírico para o trágico, e o torna de fato emocionante.

Uma Jerusalém conflagrada, onde o terror é como “um segundo inverno”

A exceção ao tom geral do livro é o último conto, o poético “Essa é a nossa sabedoria”. Narrada em primeira pessoa por um personagem chamado Natan, a história se passa numa Jerusalém conflagrada, cujos habitantes aprenderam a viver com o terror como um “segundo inverno”, algo que “faz parte da atmosfera da região”. Ao escolhê-la para fechar o volume, Englander parece ter querido exibir o corpo - a pessoa - por trás da voz semi-espectral que conta as outras histórias: “na rua sou todo animal. Sou todo sentidos, todo olfato, paladar e tato.” É uma narrativa comovida, cuja última frase é quase uma confissão: “E mesmo que uma bomba em local público o atinja de modo pessoal, esconda isso de todos para não ser chamado a liderá-los.”

O GLOBO:Para alívio dos impulsos insuportáveis” foi publicado há oito anos. O que você acha hoje das histórias?

NATHAN ENGLANDER: Acabo de ver a edição brasileira. É divertido vê-las de novo. É um bom teste, ver algo reaparecer depois de tanto tempo. Mas tenho essa idéia, uma regra que estabeleci logo que comecei a escrever, mesmo sem saber se iria mantê-la: você faz seu trabalho como algo isolado, privado, mas sinto que nada deveria ser mostrado ao mundo até que você esteja pronto a responder por isso para sempre. A escrita é a única coisa na vida em que eu realmente tento o meu melhor. Não quase o melhor, ou “eu estava ocupado, fiz o melhor que podia”. É realmente tudo que eu tinha num certo momento. Isso traz uma sensação de encerramento. Quando um livro é publicado, é porque está pronto. E a idéia é que se me dessem mais dez anos com essa coleção eu não mudaria uma palavra.

O GLOBO: Você nunca teve, ao reler um texto, alguma sensação de arrependimento?

ENGLANDER: Bem… você é o critico nesta entrevista. Você pode achar que eu deveria me sentir envergonhado (risos).

O GLOBO: Ao escrever essas histórias, você começava com uma idéia clara dos temas que desejava explorar? Ou isso se desenvolvia durante a criação?

ENGLANDER: Se você me perguntasse enquanto eu estava escrevendo, eu poderia dizer “é um livro sobre patinação no gelo”. Não importa, você pode estar se enganando totalmente. Com o romance (”Ministry of special cases”, lançado este ano nos EUA), pensei: “é sobre a história argentina, ditadura e habeas corpus”. Ao terminar fui ver: “ah, na verdade é sobre pais e filhos”. Com os contos, só quando me distanciei vi que eles são sobre sagrado e profano, religioso e secular, Jerusalém. Todas essas grandes idéias vêm depois. Eu só penso sobre a história, e não dá para olhar de longe. Você espera que algo funcione, depois o tempo passa e você olha e vê como os temas são óbvios e dominantes.

O GLOBO: O mais óbvio desses temas, nos contos, é a relação entre o judaísmo e a vida moderna. Isso os inscreve numa tradição literária de autores como lsaac Bashevis Singer, Bernard Malamud, Philip Roth. Ao escrever, você estava conscientemente dialogando com esses autores?

ENGLANDER: Foi muito bom ser comparado a esses autores. É um cumprimento grande demais e bom demais, quase corruptor. Sempre comparo a um enorme bolo de casamento, que você não tem onde botar em sua sala. É uma coisa que tenho que ouvir, ser grato e depois nem pensar a respeito, porque o que faria com isso? E certamente não durante a composição, isso seria um pensamento louco. Mas é de fato uma boa associação, em termos de onde minha cabeça está. Fui criado num mundo religioso fechado, depois me tornei uma pessoa secular. Isso dá uma certa excitação, é como se um mundo se abrisse. Se você olha para um escritor como Philip Roth, ele estava tentando ser americano. Suas histórias são sobre passar para o outro lado, ser aceito. Essa é a geração dos meus pais. Não é como fui criado. Na minha geração, eles já estavam estabelecidos e nos criaram como judeus, dizendo: “não se misture, não vá à sociedade”. Acho uma boa comparação quando me associam a Singer ou Malamud.. Posso sentir essa excitação em toda escrita deles, essa idéia do mundo mais amplo, da alegria do mundo. Isso me interessa.

O GLOBO: Mas você percebe marcas de sua educação religiosa em seu trabalho?

ENGLANDER: Minha rotina é muito monástica, meu padrão é muito ritualístico e triste. A questão é: meu cérebro essa forma, ou fui criado assim. Eu fui muito bom em ser religioso e hoje sou um escritor muito dedicado, e acho talvez eu tenha uma cabeça apropriada para um comportamento isolado, repetitivo, ritualístico, monástico.

O GLOBO: Você é capaz de se lembrar, hoje, dos motivos que inicialmente o levaram a escrever? Ainda são os mesmos?

ENGLANDER: Se você é um leitor, isso tem que ser o que o leva a ser um escritor, num sentido muito romântico. Quando você é um adolescente, cheio de perguntas, e começa a ler a sério, sente como se a literatura pudesse salvar a vida, curar o câncer, te fazer mais alto. Acredito nos livros de modo muito profundo. Acho que meu impulso ainda é o mesmo. 0 que muda são suas obsessões. Mesmo que você queira pensar em coisas que permanecem, como meu medo de autoridade, esse terror de controle, de ficar preso, há diferenças. As histórias do meu primeiro livro foram escritas nos meus vinte anos, nesse tempo em que eu tinha acabado de deixar a religião. Se eu estivesse aos 37 escrevendo sobre ter raiva de algum rabino do segundo grau, isso não mostraria um desenvolvimento. Seus temas devem amadurecer. Sabe, você não quer ficar para sempre amargurado com um jogo que perdeu no segundo grau. Todos conhecemos pessoas assim, que ficam lembrando o gol que elas marcaram aos 16. Aos 26, você pode lembrar esse gol com seus camaradas. Aos 56, é melhor você ter alguma outra coisa sobre a qual falar. É como vejo a escrita.

O GLOBO: A resposta crítica ao seu primeiro livro foi consagradora. Você só foi lançar o segundo agora, oito anos depois, embora trabalhasse nele desde 1997. A pressão de corresponder às expectativas criadas por ‘Para alívio dos impulsos insuportáveis” teve algo a ver com essa demora?

ENGLANDER: Sim, houve uma pressão enorme, enorme, enorme. Mas a pressão de dar seqüência a um sucesso é provavelmente muito melhor que a de dar seqüência a um fracasso. Foi muito difícil de diversas maneiras, foi muito complexo. Mas não poderia ser mais grato por esse desafio, gostaria de tê-lo em todo livro. É parte também do amadurecimento, aprender a escrever como escritor, com expectativas. Você escreve o primeiro livro com vários medos: “serei publicado?”, “as pessoas vão ler meus textos? O que estou fazendo com minha vida?”. No segundo, você pensa: “isso será publicado, as pessoas vão ler, o que estou fazendo!?”

O GLOBO: Ao escrever, o quanto você tem a sensação de estar de alguma forma explorando a natureza humana, e o quanto tem a consciência de estar de fato compondo um texto, criando essa coisa artificial que chamamos “história”?

ENGLANDER: É engraçado… Eu tenho o hebraico como uma segunda língua, como imagino que seja o inglês para você. Às vezes, quando estou conversando em hebraico, sendo realmente conciso e fluente, eu saio da minha cabeça e penso “meu Deus, estou sendo fluente”. E aí tudo congela. Você pode quase ouvir a si mesmo falando. Como escritor, você tem às vezes esse ponto ideal onde o acordo entre as coisas é quase chocante, onde você faz tudo isso: está vendo um quarto, ouvindo os personagens conversando, e ao mesmo tempo vendo as frases, a linguagem, a estrutura da história. Você tem cinco níveis diferentes ao mesmo tempo. É dos momentos mais doces que se pode ter. São os momentos ideais, em que de alguma forma está tudo acontecendo ao mesmo tempo. Em outro contexto, eu poderia dizer ” I am in the zone!” (algo como “estou inspirado!”), ou “estou tomado pela musa”.

O GLOBO: Então você sente prazer escrevendo?

ENGLANDER: Bem, ouvindo isso qualquer um dos meus amigos agarraria o telefone e diria: “ele sente prazer e tortura o resto de nós!”. É maluco. Se você não perguntasse isso, eu pensaria em como arranquei meu cabelo, em como achei que ia me matar. Alguém de fora pode dizer “parece terrível”, e eu responderia “não, é a melhor coisa do mundo”. O medo pode ser esmagador. Não posso fingir ser calmo, nem por um segundo. Meus dois livros foram inacreditavelmente intensos. Mas amo o processo. A escrita.