Opiniões e matérias
Matéria no Mundo Livro de Carlos André Moreira, editor de livros do jornal Zero Hora disponível aqui.
Quinta-feira, 27 de março de 2008
E já que eu falei de livros não lidos
Como a propósito do artigo de John Freeman eu citei também o livro recentemente publicado por aqui de Pierre Bayard, é uma boa oportunidade para republicar aqui o artigo que escrevi sobre essa obra no Caderno Cultura do dia 16 de fevereiro último. Destaquei algumas passagens que dialogam com as idéias de Freeman no artigo cujo trecho traduzi abaixo. Para quem não leu, leu e esqueceu, ou nem quis ler e continua não querendo. Qualquer coisa, nos vemos no próximo post.
Os Livros que Não Lemos
Professor de literatura francesa na Universidade de Paris, Pierre Bayard discute a indeterminação dos conceitos de leitura e de não-leitura em ensaio best-seller que defende a tese de que cada leitor monta sua própria rede de relações com uma obra.
Acautelem-se os que costumam comprar um livro instigados pelas promessas contidas no título. À primeira vista, a obra Como Falar dos Livros que não Lemos (Objetiva, 207 páginas) parece um volume de auto-ajuda para picaretas e arrivistas de toda ordem. E mesmo que em seu terço final ele às vezes chegue perto disso, mas não muito, o livro do professor francês de literatura Pierre Bayard é um delicioso e instigante ensaio sobre as contradições e dificuldades das definições correntes do que venha a ser leitura – e, por conseqüência, do que pode ser chamado “não-leitura”.
Ao abordar o mesmo tema, no magistral Uma História da Leitura, publicado em 1997 no Brasil pela Companhia das Letras, o crítico Alberto Manguel já justificava o uso do artigo indefinido no título da obra devido àquela ser uma dentre as milhares de histórias da leitura possíveis, uma para cada leitor. Com a liberdade formal proporcionada por essa escolha, Manguel construiu sua visão pessoal da história da leitura com uma série de ensaios mesclando depoimentos pessoais com tentativas de sistematizar uma linha narrativa cronológica e classificatória, elencando hipóteses históricas ao mesmo tempo em que apresentava diferentes tipos de experiências de contato com o universo da leitura.
É um caminho em certo ponto similar ao que Bayard trilha em Como Falar dos Livros que não Lemos. Ambos os ensaios concordam em um ponto essencial: a leitura é uma atividade cujo poder transformador independe de orientação especializada ou da condução dócil de um cicerone, cada leitor fará dela uma circunstância pessoal. A diferença é que essa conclusão leva Manguel a um elogio da leitura individual, enquanto Bayard aproveita para comentar que, se a leitura prescinde de recomendações de terceiros, mesmo formas socialmente reprováveis de apreciação de uma obra, como a própria não-leitura, são válidas como apreciação artística. O livro de Bayard é a defesa erudita e involuntária do mote de Oswald de Andrade: “não li e não gostei”.
Como Falar dos Livros que não Lemos é dividido em três partes. Já na primeira delas o autor detém-se sobre as complexas nuanças existentes em alguns conceitos tomados universalmente como válidos. A fim de estabelecer desde logo as ferramentas de sua reflexão, Bayard descarta a, para ele pouco clara, distinção entre livros lidos e não-lidos. Um livro não-lido pode ocupar um espaço tão central em uma cultura que determinados leitores terão sobre ele tantas informações quanto aqueles que o leram. E, mesmo no âmbito mais restrito das obras a quem alguém realmente se dedicou, há gradações para o que sobrou dessa leitura. Alguns lerão até boa parte antes de desistir, e outros lerão um livro inteiro e reterão sobre ele uma memória mais pálida do que a daqueles que não leram uma determinada obra, mas têm conhecimento do que dela já se disse, já se estudou e de sua importância:
“É difícil, como se vê - e os fatos só vão acentuá-lo - determinar com precisão o que é a não-leitura, e, conseqüentemente, o que é a leitura. Parece que nós nos situamos, o mais das vezes, ao menos no caso dos livros que nos acompanham no interior de uma determinada cultura, em um território intermediário entre as duas, a ponto de se tornar difícil dizer, na maior parte dos casos, se nós os lemos” - escreve Bayard.
Com o humor refinado que permeia todo o livro, Bayard propõe novas classificações, e as apresenta detalhadamente na primeira parte. Substitui “lido” e “não lido” por quatro categorias que pretendem abranger a variedade de interações de um leitor com a obra. São elas: os livros “desconhecidos”, a grande maioria sobre a qual nada se sabe; os “folheados”, aqueles que foram manuseados tendo sido percorridos até o fim ou não; os “de que ouvimos falar”, sob os quais nos chegaram informações seja pela rede de trocas culturais da tradição seja pela resenha de uma publicação, como esta aqui; os “esquecidos”, aqueles que, mesmo seguidos palavra por palavra até o fim vão gradualmente sendo erodidos da memória. Com exceção da categoria dos “desconhecidos”, contudo, as demais não são estanques: nada impede que tenhamos ouvido falar de um livro que mais tarde folhearemos – e é impossível reter na memória humana a totalidade, palavra por palavra, de um livro, e portanto todos eles, em maior ou menor grau, são parcialmente esquecidos. O que sobra de cada um são ilhas de compreensão conectadas pelo impacto que a obra produziu no leitor.
Falando assim, parece um árido exercício de taxonomia, mas a obra de Bayard, plena de uma ironia sutil, garante o interesse recorrendo, com texto impecável, a exemplos tirados da própria literatura: Proust, Valéry, Umberto Eco, Robert Musil, entre outros. Todos parte do que Bayard chama, em defesa de sua tese, de “biblioteca coletiva”, o grande continuum literário para o qual cada autor contribuiu e no qual se situa de acordo com sua importância. O patrimônio coletivo que permite a alguém dissertar e ter opinião sobre um livro que não leu: a capacidade de situar autores e textos no grande panorama da literatura.
“Para um verdadeiro leitor, preocupado em refletir sobre a literatura, não é um livro específico que conta, mas o conjunto de todos os outros, e prestar atenção exclusiva em um único traz o risco de perdermos de vista o conjunto e aquilo que, em todos os livros, faz parte de uma organização mais ampla e que permite compreendê-lo em profundidade.”
Na segunda parte, Bayard vai um pouco além: cada leitor vai priorizar aquilo que a ele interessar na grande biblioteca coletiva. Some-se a essa idiossincrasia o fato de que a recepção de um livro muda de acordo com o espírito do tempo e com a cultura na qual o leitor está imerso (Bayard exemplifica com o hilário relato de uma pesquisadora em dificuldades para explicar Hamlet a uma tribo africana que, para começar, não acredita em vida após a morte, divergindo já na primeira cena do catalisador da peça, o fantasma do rei morto). Em decorrência dessa combinação de fatores, as relações simbólicas, intelectuais e afetivas que um leitor estabelece com uma obra jamais serão as mesmas que as de outro leitor. E, já que muito do que se leu costuma desaparecer da memória, todo livro lido com paixão virá a ser substituído na mente e no coração do leitor por um outro livro, o livro que ele considera ter lido, não necessariamente o mesmo que o autor pensa ter escrito.
“Mas, sobretudo, já que é verdade que os livros interiores de duas pessoas não podem coincidir, é inútil lançar-se em longas explicações diante de um escritor, que se vê ameaçado de ter a angústia aumentada à medida que evocamos o que ele escreveu, experimentando a sensação de que estamos lhe falando de um outro livro ou de que nos enganamos de pessoa.”
Ah, sim, e se alguém ficou curioso, na terceira parte Bayard chega enfim aos sutis conselhos para que um leitor se desvie com elegância das situações em que precisa falar de um livro que não leu. Também aqui o livro vale não pelas supostas dicas, e sim pelas pertinentes reflexões que Bayard retira delas. A grande ironia é que o livro, best-seller quando lançado na França no ano passado, foi alvo de uma série de ataques de quem viu nele um incentivo à trapaça intelectual. Algumas das críticas claramente feitas por pessoas que não leram a obra. E, pelas proposições de Bayard, tão válidas quanto esta, escrita por um sujeito que leu, folheou e conheceu o livro, e que neste exato momento, provavelmente já começou a esquecê-lo e a substituí-lo por outro.
****
Correio Braziliense – DF
17/02/2008 - Nahima Maciel
Entrevista - Pierre Bayard
Escritor defende que há muito mais formas de fruição de um livro do que se possa imaginar
O bibliotecário do romance O homem sem qualidades (Robert Musil) confessa ao militar que nunca leu um livro sequer dos milhares de exemplares guardados na biblioteca pela qual é responsável. A leitura de um único exemplar embaralharia todo o seu saber sobre a leitura. O importante é saber do que tratam os livros, não lê-los. O poeta Paul Valéry vai pelo mesmo caminho. Não achou necessário ler Marcel Proust para proferir conferências sobre Em busca do tempo perdido. Tampouco considerou a possibilidade de mergulhar nos livros de Anatole France antes de homenageá-lo em público.
Valéry louva a separação entre obra e autor. E não tem pudores em considerar benéfica a exclusão do autor e do texto quando se transita pelo terreno da crítica literária. Bizarro, mas tem mais. E na voz de vez de Umberto Eco. Basta ler ou ouvir falar o que se disse de determinado livro para comentá-lo. Tem também Michel de Montaigne. O filósofo francês garante que ler um livro e esquecê-lo é o mesmo que nunca tê-lo lido, embora isso não prejudique em nada o leitor. Claro que o fato o transforma em um não-leitor, mas paciência.
Professor de literatura francesa na Universidade Paris 8, na periferia parisiense, o contemporâneo Pierre Bayard junta Valéry, Montaigne, Eco e outros para mostrar a falta de propósito em ler um livro com o único objetivo de comentá-lo. Como falar dos livros que não lemos? parece um ensaio. São 208 páginas sobre um modo curioso de leitura. No prólogo, o autor explica que não lê. Mas o autor é personagem e uma conversa com Bayard revela não ser bem um ensaio o gênero do livro, mas uma ficção escrita por um personagem fictício transmutado em autor. Tudo leva o leitor a crer que trata-se do próprio Bayard, mas não é.
“Eu leio, e muito. O personagem conta que não cresceu entre livros e, claro, não é o meu caso”, explica. O professor já experimentou a fórmula em outros livros. Reinventou, sempre em tom de ensaio, o final de vários clássicos em outras publicações. A mais recente é Como melhorar as obras fracassadas?. Inédito no Brasil, o livro retoma 13 romances da literatura francesa e sugere como melhorar sua forma e seu conteúdo.
Lançado na França no ano passado e recém chegado às livrarias brasileiras pela Objetiva, Como falar dos livros que não lemos? funciona como um bálsamo para aqueles que se sentem culpados com fato de não visitarem a literatura com muito entusiasmo. “Livros aparentemente não lidos não deixam de exercer efeitos sensíveis sobre nós, através dos ecos que nos alcançam”, assegura Bayard. Um aviso: não se trata de uma tentativa de dissuadir leitores e muito menos de um manual para transitar sem tropeços por entreveros literários.
O professor divide em três categorias as não-leituras. Na primeira, estão os livros sequer consultados. Aqueles que o leitor nem sabe que existem. Ou os de que tem conhecimento, mas nunca tocou ou folheou. O importante aqui não é saber o conteúdo, defende Bayard, mas a situação do livro. Ou seja, o que ele representa na história da literatura. É o bibliotecário da obra de Robert Musil o exemplo mais contundente.
Em seguida vêm os livros não-lidos, mas eventualmente consultados. E o exemplo de Valéry serve a contento. Em 1923, o poeta escreveu extenso artigo na Nouvelle Revue Française sobre Proust e Em busca do tempo perdido. Detalhe: o poeta nunca leu a obra. Mas é capaz de situá-la no mundo das idéias e fazer sua crítica. Outra categoria importante abrange os livros dos quais se ouve falar. Em O nome da rosa, Umberto Eco conta a história de um monge capaz de reconstituir o conteúdo de um livro que não leu por meio de uma simples investigação sobre o tal volume. E, finalmente, a categoria das leituras esquecidas. Nesta, o próprio Bayard confessa se incluir inúmeras vezes. Abaixo, o autor fala sobre as relações entre leitores e obras e um certo mal-entendido que ronda Como falar dos livros que não lemos?
Literatura e liberdade
O que motivou a escrita de Como falar dos livros que não lemos?
Sempre achei interessante, original e paradoxal essa idéia de duas pessoas falarem de um livro que não leram. Acontece com freqüência. Nós, intelectuais, sabemos muito bem que não podemos ler todos os livros dos quais devemos falar e eu quis analisar essa situação de comunicação. A partir daí, comecei a refletir sobre o processo da leitura, que é muito complexo. Freqüentemente, apresentamos a nossos estudantes um único caminho para a leitura: da primeira à última linha. Mas os que lêem muito sabem que existe múltiplas maneiras de se encontrar com um livro.
Como o livro foi recebido por seus alunos?
Acho muito importante tentar dessacralizar a imagem do livro. Sobretudo junto aos estudantes que vêm de classes desfavorecidas, porque eles pensam que o professor é alguém que leu todos os livros, que se lembra de todos os que leu e que lê todas as publicações da primeira à última linha. Acho importante ensinar a diversidade dos caminhos da leitura, sobretudo se esses alunos consideram a cultura como um meio difícil de penetrar.
Você diz que os livros não lidos têm influência afetiva sobre aqueles que não os leram. Como isso funciona?
Meu livro é um símbolo disso. Conversando com alguns jornalistas que me entrevistaram, percebi que eles não tinham lido o livro. Por outro lado, o título ou o que leram na contracapa ou folheando o livro começou a fazê-los refletir sobre a leitura. Então, houve um início de encontro com o livro. Temos o costume de considerar apenas duas categorias: a leitura e a não-leitura. Na verdade, o grande leitor vive num espaço intermediário que não se encaixa nessas duas definições. As pessoas que têm grandes bibliotecas, como eu, às vezes recebem amigos que não têm hábito de ver tantos livros e fazem sempre a mesma pergunta: você leu todos esses livros? Não li todos, mas vivo com eles. Esses livros são companheiros, não li todos, mas sei situá-los. Às vezes, vou ver um livro para encontrar determinadas coisas; outro comprei mas não li; outro li várias vezes, mas esqueci. Há uma diversidade enorme de relações com os livros e não uma simples separação entre ler e não ler.
Quando um livro vale a pena ser lido da primeira à última linha?
Devemos encontrar os livros importantes para nós. Aquele que você lerá da primeira à última linha e que relerá e aprenderá trechos de cor. O meu livro não é feito para encorajar a não-leitura; ao contrário, é feito para encorajar a ler mais e melhor, com mais liberdade.
E sem sentir culpa em relação ao que não lemos?
No início, esse livro significava para mim simplesmente uma reflexão sobre uma situação complexa e paradoxal de comunicação. Mas me dei conta de que tinha tocado em um ponto sensível, que era a questão da culpa. Muitas pessoas me contaram uma história em quatro partes, que é sempre a mesma: “Quando eu era criança, me obrigaram a ler esse autor, não consegui e me senti culpado. Parei de ler esse autor ou parei de ler completamente”. A escola e a universidade nos infligem feridas culturais nos obrigando a ler livros que “têm” de ser lidos. Eu digo francamente: há livros muito importantes que não li. Nunca consegui terminar o Ulisses de Joyce. E um intelectual “tem” que ler Ulisses de Joyce. Mas hoje não me sinto culpado. Acho que esse livro não é feito para mim.
No seu livro há a idéia de que a leitura impede que se tenha uma visão de conjunto. O personagem bibliotecário de Musil afirma isso. O que o senhor acha dessa idéia?
As pessoas que estão no meio cultural sabem muito bem que o importante é conseguir não se perder nos livros. Mas os que estão de fora ignoram isso e são prisioneiros do conteúdo, se atêm ao conteúdo sem saber que a cultura é um mapa, uma cartografia de um conjunto. A cultura não é saber somente o que tem nos livros mas onde estão as informações. Claro, o ponto de vista desse personagem é excessivo porque ele é uma criação humorística.
E isso, ao longo do tempo, pode mudar um livro? O fato de que o que ouvimos falar está tão disseminado que o conteúdo do livro já não importa mais?
O livro é um objeto móvel, que muda com o tempo, e, por isso, a distinção entre leitura e não-leitura é inadequada e ineficaz. Faça a experiência de rever um filme ou reler um livro que você gostou muito. Freqüentemente as cenas que você preferiu não estão no livro nem no filme. São completamente diferentes porque você transformou esse livro ou filme. Quando alguém fala de um livro, cada linha é transformada.
Qual a importância da primeira impressão de um livro a partir da capa ou contracapa?
Devemos pensar nossa relação com os livros como nossa relação com os seres humanos ou os seres vivos. Acredito que encontramos os livros como encontramos pessoas e pode haver um amor à primeira vista por causa de uma capa ou uma página que acabei de abrir. Em seguida, como ocorre com os seres vivos, esse amor à primeira vista pode conduzir a relações duráveis ou então à decepção.
A seu ver, como esse livro pode ser recebido no Brasil que, ao contrário da França, é um país de não-leitores?
Meu temor é que haja um mal-entendido. Esse livro foi um best-seller em vários países porque foi um mal-entendido. Muitas pessoas o compraram como um manual para se portar em sociedade falando dos livros que não lemos. Podemos ler assim porque há realmente conselhos, mas não foi escrito nesse sentido. É um livro de um grande leitor escrito para transmitir o amor aos livros. Eu gostaria que fosse recebido como um livro humorístico, mas que reflete também sobre problemas sérios da cultura de hoje. Pode não haver muitos leitores no Brasil, mas na França há cada vez menos, e isso é um drama para mim. O projeto desse livro não é, de forma alguma, dizer ao leitor “pare de ler”. É “pare de se culpar por causa de livros, seja livre com eles”. E, claro, “leia mais e melhor”.
* * * * *
Época - 23/11/2007 - 22:58 | Edição nº 497
Como fingir que você é erudito
Por Marcelo Bernardes
Esqueça os clássicos volumosos. Para fazer sucesso nas rodas intelectuais, você só precisa ler um livro.
Se você não leu as 736 páginas de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, ou as 1.273 páginas de Guerra e Paz, de Tolstói, eis uma sessão de análise bem em conta para abrandar seu complexo de culpa: o livro How to talk about books you haven’t read (Como Falar sobre Livros Que Você não Leu, editora Bloosmbery, US$ 19,95). Escrito pelo professor de Literatura e psicanalista francês Pierre Bayard, este best-seller que conquistou a Europa no começo do ano e que chega agora aos Estados Unidos e em janeiro ao Brasil, pela editora Objetiva, propõe uma subversiva teoria: que é possível engajar-se numa conversa inteligente e ardorosa sobre clássicos da literatura sem a necessidade de tê-los lido.
Segundo Bayard, a tácita convenção vigente de que é essencial ter devorado um livro inteiro para debatê-lo é uma grande bobagem. Não é necessário mais que uma passada de olhos pela foto da capa ou dar uma lida rápida no texto da orelha e no índice da obra para discuti-la com conhecimento de causa. Lembre-se: é possível debater um filme apenas dando uma olhadela nos dois minutos de seu trailer.
Para embasar sua tese de que nosso subconsciente é que melhor devora literatura, Bayard busca exemplos históricos. Grandes intelectuais e teóricos geralmente teciam comentários apaixonados sobre livros que jamais tinham lido ou que já haviam lido, mas esquecido. O poeta e ensaísta francês Paul Valéry não leu Marcel Proust para opinar sobre os sete tomos de Em Busca do Tempo Perdido e conquistar um posto no olimpo da crítica literária mundial. E o novelista irlandês Oscar Wilde falou publicamente sobre sua abstinência literária: “Nunca li um livro antes de criticá-lo; isso poderia me influenciar”. O próprio Bayard, que é atualmente professor de Literatura Francesa na Universidade de Paris, confessa jamais ter aberto Oliver Twist, de Charles Dickens, ou Ulisses, de James Joyce.
Bayard também procura exemplos dentro da literatura. No livro Um Homem sem Qualidades, de Robert Musil, um bibliotecário explica que, para não perder a perspectiva dentro de um prédio repleto de livros, lia apenas os títulos das obras e seus sumários.
Embora How to Talk não seja um livro de auto-ajuda, Bayard oferece algumas dicas de como se safar numa roda de conversas sobre os livros de José Saramago e William Faulkner que você não leu. Até uma fofoca ou um fato conhecido da vida do autor pode impressionar. Citar Marilyn Monroe numa conversa sobre Arthur Miller não vai fazer ninguém soar supérfluo. O único porém é que, para fazer isso, é preciso ler este livro.
* * * *
Manual da malandragem literária
Ler pela metade, saltar páginas e até opinar sobre o livro que nunca se abriu: tudo vale, diz um ensaísta francês
Por Jerônimo Teixeira
As bibliotecas podem ser tanto fonte de prazer quanto de angústia. Estão lá todos os livros que você não leu, e cada lombada parece olhar em sua direção com uma censura silenciosa. Reforçando essa cobrança dos séculos, há uma pressão social sobre o leitor. Dependendo da roda que se freqüenta, pode ser embaraçoso admitir que não se leu um romance de Tolstoi ou de Machado de Assis. Mentir, nesses casos, é uma alternativa arriscada: e se você for convocado a dar uma opinião informada sobre um livro que nunca chegou nem a folhear? Um livro lançado recentemente na França pretende aliviar a culpa do não-leitor. De autoria de Pierre Bayard, psicanalista e professor de literatura francesa da Universidade Paris VIII, o ensaio se intitula Comment Parler des Livres que l’On n’A pas Lus? (Como Falar dos Livros que Não Lemos?). Soa como um incentivo descarado à fraude intelectual, um manual de sobrevivência para filistinos. Com alguma malícia, é, sim, possível aprender uma malandragem ou outra com Bayard (veja o quadro). Mas o livro é, sobretudo, um ensaio inteligente sobre as várias formas de apreciar um livro. A leitura da primeira à última página, em ordem e sem saltos, é apenas uma entre inúmeras possibilidades – e nem sempre a mais compensadora.
O livro que foi largado na metade, ou logo nas primeiras páginas, ou lido aos pedaços, ou apenas folheado – todos eles fazem parte do histórico do leitor. Esse destino atinge não apenas os clássicos mais portentosos e exigentes, mas também as obras de consumo rápido. Uma pesquisa recente na Inglaterra colocou Harry Potter e o Cálice de Fogo, best-seller mundial de J.K. Rowling, em segundo lugar na lista dos livros que os entrevistados compraram mas não chegaram a ler. E O Alquimista, de Paulo Coelho, aparece em sétimo (o primeiro lugar coube a Vernon God Little, de DBC Pierre, vencedor do mais prestigioso prêmio literário da Inglaterra, o Man Booker, em 2003. É compreensível que seja pouco lido: o livro é de uma ruindade atroz). Essas quase-leituras são, de acordo com Bayard, tão válidas quanto a leitura total. Aliás, a idéia de que se pode ler um livro por inteiro seria ilusória. Esse esforço de completude é comprometido por uma limitação humana: o esquecimento. As pessoas começam a esquecer uma página quando ainda estão lendo a seguinte. Com o tempo, vão embaralhando as diversas obras que leram, quando não as esquecem totalmente. Sempre que chamadas a dar sua opinião sobre uma obra literária, acabam falando não do livro efetivo, mas da lembrança imperfeita, distorcida, que guardaram dessa obra.
A exigência de ler tudo de todos os livros é, claro, irreal. Existem até advertências clássicas sobre o excesso de leitura. Sobre Livros e Leitura, ensaio magistral de Arthur Schopenhauer, vai nessa linha. O filósofo alemão recomenda parcimônia ao mergulhar nas bibliotecas: a arte de não ler é importantíssima. Só assim é possível selecionar, no meio da mediocridade que predomina em qualquer época, aquelas poucas obras que realmente valem a pena. “Para ler o bom, uma condição é não ler o ruim: porque a vida é curta, e o tempo e a energia, escassos”, pontifica o filósofo. O problema é que o tempo de uma vida mortal é escasso mesmo para quem se atenha somente ao “bom”. Todo leitor acaba fazendo algum tipo de recorte na biblioteca dos séculos, para constituir sua coleção íntima. O escritor americano Ernest Hemingway recorda, em Paris É uma Festa, a ocasião em que perguntou ao poeta Ezra Pound o que ele achava de Dostoievski. Pound tinha uma cultura poética assombrosa, trafegando com facilidade dos clássicos gregos e latinos aos trovadores provençais e aos modernistas. Mas sua resposta decepcionou Hemingway: “Para lhe ser franco, nunca li os russos”. Pound, que era fã de Stendhal, aconselhou o amigo a ler “os franceses”.
O caso não é citado em Como Falar dos Livros que Não Lemos?, mas serviria para ilustrar a sugestão mais polêmica de Bayard: qualquer um pode ter uma opinião legítima sobre um livro, mesmo sem tê-lo lido. Pound, afinal, não se limitou a confessar sua ignorância da literatura russa. Ele insinuou que Dostoievski, afinal, é dispensável para quem já leu Stendhal. Trata-se de uma opinião para lá de discutível, sem dúvida – mas toda opinião literária tem sua dose de capricho pessoal. Bayard lembra que há várias maneiras indiretas de conhecer um livro: pela crítica, por resumos, pelo que os amigos falam, pela posição do livro em catálogos e bibliotecas. Pound com certeza sabia quem é Dostoievski. Teria até uma noção exata de sua importância – e não será descabido especular que sua preferência pelos franceses não mudaria com a leitura de Crime e Castigo. Pois todo leitor, argumenta Bayard, carrega consigo uma biblioteca virtual, um repertório de livros que lhe permite se posicionar diante de qualquer obra – mesmo que não a tenha lido.
Em tempo: Como Falar dos Livros que Não Lemos? não tem previsão para ser lançado no Brasil. Mas agora ninguém pode impedir que se fale dele – mesmo sem ler.
* * * *
Os livros que não lemos
Por Umberto Eco
Lembro-me (mas, como veremos, isso não significa que eu me lembre direito) de um belíssimo artigo de Giorgio Manganelli, no qual ele explicava como um leitor requintado pode saber que um livro não é para ser lido mesmo antes de abri-lo. Ele não estava se referindo àquela virtude que muitas vezes se exige do leitor profissional (ou ao amador de bom gosto), a de conseguir resolver por algumas palavras iniciais, por duas páginas abertas ao acaso, pelo sumário, não raro pela bibliografia, se um livro vale a pena ou não ser lido. Isso, diria eu, são ossos do ofício. Não, Manganelli se referia a uma espécie de iluminação, da qual, evidente e paradoxalmente, se arrogava o dom.
Como falar dos livros que não lemos?, de Pierre Bayard, psicanalista e docente universitário de literatura, não trata de como saber se devemos ler um livro ou não, mas de como se pode falar tranqüilamente de um livro que não se leu, mesmo de professor para estudante, e mesmo em se tratando de um livro de importância extraordinária. Seu cálculo é científico: os acervos das boas bibliotecas contêm alguns milhões de volumes, e mesmo que leiamos um volume por dia, leríamos apenas 365 livros por ano, 3.600 em dez anos, e entre dez e 80 anos teríamos lido apenas 25.200 livros. Uma inépcia. Aliás, quem quer que tenha tido uma boa educação secundária sabe perfeitamente que pode acompanhar um raciocínio sobre, digamos, Bandello, Boiardo, inúmeras tragédias de Alfieri e até sobre As confissões de um italiano [de Ippolito Nievo] tendo aprendido sobre eles apenas o título e a classificação crítica na escola.
O ponto crucial, para Bayard, é a classificação crítica. Ele afirma, sem o menor pudor, que nunca leu o Ulisses de Joyce, mas que pode falar sobre ele aludindo ao fato de que se trata de uma retomada da Odisséia (que ele, aliás, admite não ter lido por inteiro), que se baseia no monólogo interior, que se passa em Dublin em um único dia etc. Assim escreve: “Portanto, em meus cursos acontece com certa freqüência que, sem pestanejar, eu mencione Joyce”. Conhecer a relação de um livro com outros livros não raro significa saber mais sobre ele do que o tendo lido.
Bayard mostra que, quando começamos a ler livros há certo tempo negligenciados, percebemos que conhecemos seu conteúdo porque entrementes havíamos lido outros livros que falavam deles ou se moviam dentro da mesma ordem de idéias. E (assim como faz algumas divertidíssimas análises de textos literários em que se trata de livros nunca lidos, de Musil a Graham Greene, de Valéry a Anatole France) honra-me ao dedicar um capítulo ao meu O nome da rosa, no qual Guilherme de Baskerville demonstra conhecer muito bem o conteúdo do segundo livro da Poética, de Aristóteles, que ainda assim ele tem na mão pela primeira vez, simplesmente por deduzi-lo de outras páginas aristotélicas. Veremos depois, no final dessa Ecco!, que não menciono esta citação por mera vaidade.
A parte mais intrigante desse panfleto, menos paradoxal do que poderia parecer, é que esquecemos uma porcentagem altíssima até daqueles livros que lemos realmente. Aliás, compomos uma espécie de imagem virtual a seu respeito, imagem feita nem tanto do que eles diziam, e sim do que fizeram passar em nossa mente. Por isso se alguém que não leu determinado livro citar para nós passagens ou situações ali inexistentes, somos mais que propensos a acreditar que o livro fala realmente daquilo.
É que Bayard não está tão interessado em que as pessoas leiam os livros alheios, mas antes no fato de que cada leitura (ou não-leitura) tenha de ter um aspecto criativo e que (utilizando palavras simples) em um livro o leitor tenha de colocar, antes de tudo, farinha de seu saco. A ponto de auspiciar uma escola em que – já que falar de livros não lidos é uma maneira para conhecer a si próprios – os estudantes “inventem” os livros que não deverão ler.
Exceto o fato de que Bayard, para mostrar que ao se falar de um livro não lido até quem o leu não percebe as citações erradas, lá pelo final de seu discurso confessa ter introduzido três notícias falsas no resumo de O nome da rosa, de O terceiro homem, de Graham Greene, e de A troca, de David Lodge. O caso divertido é que, ao ler, percebi de imediato o erro sobre Greene, tive uma dúvida a propósito de Lodge, mas não tinha percebido o erro a propósito de meu livro. Isso significa que provavelmente não li direito o livro de Bayard ou então que eu apenas o folheei. Mas a coisa mais interessante é que Bayard não se deu conta de que, ao denunciar seus três (propositais) erros, assume implicitamente que há, dos livros, uma leitura mais correta do que outras – tanto que, dos livros que analisa para sustentar sua tese da não-leitura, dá uma leitura muito minuciosa. A contradição é tão evidente que dá margem à dúvida de que Bayard não tenha lido o livro que escreveu.







