É porque são italianos?

julho 5th, 2008 ane aguirre

Eu devo estar errada. Não me importo. Mas diante da apresentação da mesa 13 só posso mesmo concluir que minha pergunta procedia (quando deparei-me com a programação) sobre o que deveria ser o objetivo da mesa. Os dois são italianos: Alessandro Baricco e Contardo Calligaris. Tá e daí? Durante a conversa a coisa não flui. Um é escritor, o outro psicanalista. Não falam a mesma língua (e não estou falando de idioma) e a mediação do jornalista Manuel da Costa Pinto não conseguiu unir as pontas das histórias mesmo puxando o nome de uma cidadezinha italiana onde nasceu o pai de um e o outro passava as férias na infância. Evidentemente é preciso mais para que uma mesa de conversa entre pessoas inteligentes mostre a que veio. Não mostrou. O que é uma pena, já que Alessandro Baricco é um dos melhores escritores dos nossos dias, talvez não tão conhecido e lido no Brasil como deveria. E quem perde com uma mesa assim é, infelizmente, o leitor: de literatura.

Início da mesa Fábulas Italianas

julho 5th, 2008 sergiofonseca



Início da mesa Fábulas Italianas

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Fábulas Italianas

julho 5th, 2008 sergiofonseca



Fábulas Italianas

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Alessandro Baricco
Direto da Tenda dos Autores
[foto: Sergio Fonseca]

Fábulas Italianas

julho 5th, 2008 sergiofonseca



Fábulas Italianas

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Contardo Calligaris
Direto da Tenda dos Autores
[foto: Sergio Fonseca]

A mão e a luva

julho 5th, 2008 sergiofonseca

A mão e a luva
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Neil Gaiman - Direto da Tenda dos Autores - [foto: Sergio Fonseca]

Gaiman falou sobre seu processo criativo, as técnicas para captar e escrever os diálogos, o quanto aprendeu com o jornalismo: “em entrevistas aprende-se a ouvir as pessoas e transformar os diálogos no que a pessoa quis dizer e não no que disse exatamente”. Além disso, numa conversa normal pode-se observar que as pessoas falam coisas que não terminam, isso escrito torna-se chato. Em quadrinhos há pouco espaço, é preciso escrever em espaços com limite de trinta palavras.

A mão e a luva

julho 5th, 2008 sergiofonseca

A mão e a luva - Originally uploaded by flip.parati
Richard Price - Direto da Tenda dos Autores [foto: Sergio Fonseca]
O autor agradece ao povo de Paraty por terem colocado a cachaça em sua vida: “nunca em toda a minha vida eu soube que uma dor de cabeça pode ser tão longa e tão complexa!”.

A mão e a luva

julho 5th, 2008 sergiofonseca

A mão e a luva

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A mesa 12, com mediação de Marcelo Tas, parece ter cumprido seu objetivo como mesa pop. A fila de entrada começou cedo e foi longe, a tenda lotou, as pessoas caracterizadas evidentemente apareceram, as filas continuaram ao longo da tarde para o autógrafo do incansável Gaiman.

Fãs de Gaiman na Platéia

julho 5th, 2008 sergiofonseca



Fãs de Gaiman na Platéia

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Pepetela lê um trecho de Predadores

julho 5th, 2008 sergiofonseca

Pepetela lê um trecho de Predadores

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O trecho escolhido foi sugerido pela editora Língua Geral. Pepetela revela sua admiração e faz homenagem ao escritor Jorge Amado citando a novela Gabriela: “Sor Jorge Amado, meu querido mestre”. Enquanto lê, a plateia mostra simpatia, ele arranca sorrisos e brilho de olhos. Pessoas apoiam o queixo nas mãos, posição do corpo inclinando-se à frente: todo ouvidos.

Mais tarde, na mesa de autógrafos ele confessa: Transgredi novamente! Não li somente o que me pediu o editor. Fui um pouco além, achei que precisava mostrar um pouco mais. Perguntei (eu, Ane) se era aquela parte sobre os olhos de negro veludo. Sorriu confirmando e disse: gosto de transgredir. A transgressão dá mais graça à vida.

“Mas as grandes coisas não são para serem ditas por isso ela não perguntou” (parte da transgressão).

Eduardo Agualusa

julho 5th, 2008 sergiofonseca

Eduardo Agualusa

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Acabou neste instante a mesa Guerra e Paz.

Agualusa conta que está feliz por estar em Paraty, comenta que há muitas mulheres bonitas na cidade e diz que elas são parte importante de uma festa literária. Sobre os autores que compõem a mesa Guerra e Paz, elogia e recomenda “Meio sol amarelo” de Chimamanda e diz que é difícil imaginar um homem tão tranqüilo como Pepetela com uma arma na mão lutando na guerra. Pepetela rapidamente o interrompe para dizer: “sou muito bom de pontaria”.

Chimamanda Ngozi Adichie

julho 5th, 2008 sergiofonseca

Chimamanda Ngozi Adichie

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Sobre a questão da mesa chamar-se Guerra e Paz unindo dois escritores que têm a guerra em seus livros, Chimamanda diz que está mais interessada em escrever sobre as pessoas e o modo como são afetadas pela guerra e menos interessada em escrever sobre a guerra em si. Diz não concordar com a idéia de que o autor tenha que ter um papel específico e escrever sobre assunto determinado (como a história africana, por exemplo, já que afinal a África tem muitas histórias). O papel de um escritor é de contar histórias: “eu as conto da melhor maneira possível”.

Chimamanda e Pepetela

julho 5th, 2008 sergiofonseca



Chimamanda e Pepetela

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Ótima conversa entre Chimamanda e Pepetela na mesa Guerra e paz. Mediação de Eduardo Agualusa. No momento, autores respondem à perguntas do público.

Literatura feminina, não.

julho 3rd, 2008 ane aguirre

Se não é para falar do rótulo “literatura feminina”, por que alguém trouxe o assunto à baila? Para dizer que não queremos e não suportamos mais tais rótulos. Pode ser. Ou simplesmente para ter um fio condutor entre três mulheres que escrevem. E falam. E fazem. E cada uma diz a que veio. Aí está a mesa “Sexo, mentiras e videotape”, conduzida pelo escritor português José Luis Peixoto (corajoso!). O mediador apresenta as escritoras que vão começar lendo trechos de seus livros: Cíntia Moscovich, Zöe Heller e Inês Pedrosa.

Ao contrário do que se imaginava (eu, pelo menos imaginava isso ao ler a sinopse.), Cíntia não lê trechos dos livros Duas iguais ou Arquitetura do Arco-íris; mas ainda está dentro do chamado “universo feminino” (da mesa, claro) suas linhas em “Por que sou gorda, mamãe?” e foi este o livro escolhido. É um livro espetacular, apetitoso e foi o último lançado por Cíntia. Eu não diria que ele trata do feminino ou do feminismo, mas trata do humano. Se foi escrito pelas pontas dos dedos de uma mulher? Foi. E daí? Fosse homem: um “por que sou gordo, papai?” seria classificado como literatura masculina? Bem, a conversa foi mais ou menos por aí (só não contou com estes bedelhos que eu vou rascunhando em papel aqui debaixo da tenda pouco iluminada, estou calada e sou toda ouvidos). O trecho que Cíntia lê está no capítulo um do livro e fala sobre o codidiano da família judia em torno da comida e da importância disso para as famílias que passaram pela guerra:

“Se havia cinco pessoas na mesa, de bifes deveria haver por baixo, dez. Para que não passássemos pela dureza de medir o que estávamos comendo, quantos bifes são meus, quantos bifes são seus. Se isso acontecesse, papai simplesmente não comia bifes para que mais houvesse para dividir. Numa mesa feliz não se contam os bifes.” E eu aqui com meus botões pensando que de tal parágrafo bem que poderíamos tecer o início de uma tese sobre o papel masculino na literatura feminina. Cíntia prossegue até o final do capítulo que é o que deve ser grudado em geladeiras, armários de cozinha, portas de restaurantes e junto aos números de telefones de tele-entrega: “Gordos são pulsânimes. Gordos são suspeitos de ter caráter fraco e determinação quebradiça. Covardes. Mentirosos. Gordos se escondem para comer. Não têm um pingo de vergonha na cara. Gordos são simpáticos porque nunca serão bonitos”. E não termina aí. A mulherzinha bate forte e sem medo (só lamento pelos que se sentem ofendidos!). Eu me vejo como a gorda que concorda com a moça que pergunta certas coisas à sua mãe. Só não “peguei” direito o ponto em que tais questionamentos fazem desta uma literatura pertencente ao universo feminino. Mas tudo bem: tem a mãe no meio disso. Se você achar que explica, que bom. Eu discordo. E tem mais: se Cíntia Moscovich continuar relatando detalhes sobre a comida de vovó magra, vou escrever um livro para contar “Por que sou gorda, Cíntia?” Experimente fazer dieta e ler um capítulo do livro dela antes de dormir. E então? Isso seria literatura feminina por quê? Não! É simplesmente literatura. Rótulo é excesso.

A leitura da escritora inglesa foi um trecho de seu livro que ficou mais conhecido no Brasil pelo filme “Anotações sobre um escândalo” e trata do envolvimento entre uma mulher de 42 anos e um garoto de quinze, sendo ela uma mulher casada e mãe. Peixoto questiona Zöe sobre não perceber em seu livro uma ortodoxia sexual. A escritora sorri e diz que há mais publicidade que verdade sobre seu livro e avisa aos jovens: é um livro que tem bem pouco sexo. Uma das idéias no livro seria levantar essa questão que existe no discurso popular sobre existência de sexo sujo, ou sexo não sadio. Zöe se opõe às questões muito restritas a respeito disso e diz que: “se você entontra um cordeirinho e quer ter relações com ele, tudo bem, desde que ele consinta”. Salienta que na sociedade contemporânea, se um homem age assim, ele é visto apenas como um predador, mas se quem agir assim for uma mulher, ela é motivo para piadas.

Inês Pedrosa lê um trecho do seu último livro, A eternidade e o desejo em que a protagonista vive as lembranças de um amante que morreu violentamente e reparte seus sentimentos com amigo e companheiro de viagem com quem não tem relacionamento físico: “Temos sensibilidades gémeas, sim - mas não é isso que nos tornará um casal, nunca. Poderia até fazer amor contigo, se não te amasse tanto de uma forma tão envergonhada, transparente, pouco conjugal. O amor físico é feito de desvergonha e intimidade, e eu não posso ser íntima de uma pessoa que é feita de minha própria massa”. Atenção você que está imaginando aqui neste trecho qualquer semelhança com o amor vivido pelos protagonistas de “Fazes-me falta“. Engano seu, segundo Inês, é melhor que leia este livro até o final e descubra por si a diferença (esta foi uma resposta a uma pergunta da platéia). Se há dificuldades em Portugal sobre descrever situações de sexo, Peixoto se dirige à Inês. Ela lembra uma expressão cantada por Caetano Veloso “estou a vir”, que em Portugal é dizer “estou gozando”. Ao cantar, Caetano provocou um mal estar em algumas pessoas porque lá tais manifestações ainda são consideradas estranhas. “Mas é bom lembrar que nós também fazemos sexo em Portugal”, diz Peixoto. Inês Pedrosa rapidamente responde: “Nós não!”. Entre gargalhadas da pláteia, Inês explica a Peixoto que não é nada pessoal. Enfim, em Portugal ainda se fala pouco de sexo, fala-se de tudo, menos de sexo.

Mais de Cíntia. Quando Peixoto questina o fato da narradora dirigir-se a um narratário que é a mãe, sendo que a mãe é uma figura feminina marcante e pergunta quem seriam as outras pessoas para quem ela se dirige - se essas pessoas existem. Cíntia responde (gosto particularmente da introdução “assim ó”, sotaque muito gaúcho!) que na verdade há algo de Kafka em “Carta ao pai” e revela ser uma pretensão idiota, tudo por culpa do Modesto Carone (que traduziu Kafka). Enfim: “claro que eu queria acertar contas com ela, mas não tem mais problema agora porque já escrevi o livro e sobrevivemos!”. Comenta que não foi tão elegante quanto Kafka, afinal: “eu sou mais faca na bota”. No entanto, essa ficção confessional altamente biográfica sempre lhe pareceu desnecessária uma vez que sua vida pessoal não interessa a ninguém. Mas se há um narratário, essa figura a quem o narrador se endereça, deve ser afinal porque todo mundo tem mãe!

E lá vem novamente a questão sobre existir ou não uma literatura feminina (coisa meio chata isso, dá para ver na fisionomia de todos). Inês é direta: não existe. Sobre ela ter dirigido a revista Marie Clair faz questão de reforçar: eu dirigia uma revista feminista e não feminina. A escritora portuguesa acha extraordinário que no Brasil as mulheres não se manifestem a respeito da interrupção da gravidez (bedelho meu: por que chamar assim aquilo que conhecemos pela palavra “aborto”?) e que se submetam aos pastores evangélicos, tendo seus filhos em condições precárias ou sofrendo riscos por conta de clínicas clandestinas (sim, é aí que eu volto a me lembrar do mal falado Vallejo). Homens e mulheres precisam se olhar de igual para igual, segundo ela (pouparei você do que eu penso porque esta é uma questão nada simplista). Peixoto revela o quanto aprendeu com Zöe sobre o trecho em que ela relata a masturbação feminina, algo que era completamente desconhecido para ele. Entre gargalhadas do público, Zöe responde: “estou encantada com sua ignorância, José! Fico feliz em transmitir este conhecimento a você”.

Certo, vamos finalizar esta longa história de mulheres, ok? A mesa foi boa. Sério. Foi boa mesmo! E talvez por ser boa tenha rendido tanto. Então para terminar, Peixoto puxa Clarice Lispector e lembra a necessidade de se conhecer, falar de si mesmo para poder falar do outro ou para o outro. Pergunta: até que ponto conseguimos ou podemos nos afastar de nós para escrever? Cíntia cita algo de Inês: “cada pessoa é uma harmonia de solidão” e completa dizendo que cada um de nós é um abismo e é o conhecimento de tal abismo que nos fornece elementos para trabalhar a literatura porque, enfim, o drama da existência não é tão vasto assim e como disse Quintana: “o pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso”. Então, diz Cíntia, a verdade é que é preciso, sim, buscar o essencial dentro de si, lá nos arquivos na memória e dos afetos para escrever de tal forma que uma solidão se comunique com a do outro.

A materialização de uma fada

julho 3rd, 2008 ane aguirre
Crônica de Walter Galvani* sobre Inês Pedrosa

Foi assim: era uma Jornada de Literatura de Passo Fundo e eu tinha que chegar a tempo de coordenar uma oficina sobre Crônica, minha especialidade predileta durante mais de cinqüenta anos de jornalismo. Não que eu fosse exclusivista, até gostei de fazer outras coisas, afinal fui e continuo sendo repórter, fui redator, editor, chefe de reportagem, secretário de redação e, finalmente, diretor de jornal, durante esses anos todos, passando, portanto, por todos os postos e situações.

Na chegada à Passo Fundo, onde se daria a Jornada, conheci Inês Pedrosa, de quem já tinha referências, mas nenhum conhecimento direto. Bem, foi conhecer e pronto: nos declaramos “amigos de infância” imediatamente.

Claro que a infância dela, passada entre Lisboa e Cascais, foi muito mais recente. Mas, lá estava eu, como um soldado seguindo prazerosamente tudo o que a Inês tinha para fazer em Passo Fundo. Dali nasceu uma ligação de compreensão e de ajuda recíproca. Talvez ela nem saiba o quanto me auxiliou com o seu texto sobre a minha oficina de crônica, denominada “O vôo da gaivota”, por que é assim que a intitulo querendo significar a busca do assunto numa frase que a escritora Valesca de Assis me pediu e eu tratei de produzir. A compreensão imediata de Inês me deu a tranqüilidade: eu estava certo.

E além de estar certo acabara de fazer uma conquista transatlântica, havia incorporado uma irmã, uma companheira de ideais e de combate.

Quando a vi, preparada para a palestra daquela noite, justamente com a apresentação da mesma Valesca de Assis, vestida com um terninho, de gravata e tudo, e quando a ouvi, vibrante e decidida, falando como um homem, aliás mulher, aliás sem sexo, com precisão e caráter, vi que minha opção estava certa.

Agora, me especializei em seguir a Inês: aonde ela vai, vou atrás, nem que seja em espírito. Assim como estou em Paraty, estou em Lisboa na Casa Fernando Pessoa que ela preside. E estarei por aí, no mundo lusófono, onde ela é uma estrela e uma fada bondosa, que ajuda os periféricos.

* Walter Galvani, gaúcho, jornalista e escritor consagrado, patrono da 49a. Feira do Livro de Porto Alegre, RS, em crônica especialmente para este site. Nossos agradecimentos ao Walter, à Inês e também à querida Valesca que, citada no texto, já participa de uma constante festa literária. Gracias!

Na mesa do botequim

julho 3rd, 2008 ane aguirre

Paulo Roberto Pires puxou as cadeiras para Humberto Werneck (à esquerda) e Xico Sá (direita) na mesa “Conversa de Botequim”, no finalzinho de tarde desta quinta-feira. Era de se esperar o toque de irreverência e o papo solto, isso não se pode negar. O botequim abriu com Azulão, composição de Jayme Ovalle com poema de Manuel Bandeira sobre a música. Humberto Werneck está lançando o livro O Santo Sujo pela Cosac Naify, uma biografia de Jayme Ovalle para dizer pouco sobre o livro. Na verdade é um livro que revela o homem, o talento, o momento do país, as situações criadas, os artistas influenciados, a arte acariciada por Ovalle de quem se sabia pouco. E aí todos podiam estar falando sério mesmo, até que Xico Sá diz alguma coisa que faz estourar gargalhadas na platéia. Vai ser assim do começo ao fim.

Werneck lê um trecho do livro, quando Ovalle está em Londres, observando que o inglês foi uma língua que o compositor nunca dominou mesmo tendo morado em N.York por quatro anos. Xico Sá, antes de ler o seu texto, faz uma observação sobre o papel do jornalista-escritor, alguém “que não consegue fazer efetivamente uma coisa nem outra”. Explica que vai ler dois trechos de textos diferentes, um que está no seu computador denominado “trecho flip” e outro que ele gosta mais. Salienta que sua obra pode ser encontrada na Internet e que todo autor deveria ter uma generosidade mínima em deixar circular seu livro (na Internet, por exemplo), para que chegue a conhecimento dos leitores, podendo até render. Sobre a leitura do texto predileto, começa a explicar que se trata de um ponto do corpo humano para o qual não há nome: “aquele entre o cu e a buceta”; sendo imediatamente informado da existência do nome: “Períneo!”, solta Werneck. E com a fisionomia de espanto de Xico, novamente a platéia cai em gargalhadas. E mais gargalhadas durante as leituras e observações de Xico Sá. Unânimes sabemos que essas risadas não foram. Houve quem reclamasse de tamanha ousadia num auditório tão misto. Afinal, quem veio saber sobre Jayme Ovalle talvez não estivesse tão interessado em palavrões ou explicações escatológicas. Mas Werneck segurou a onda e foi adiante com o Santo Sujo - que neste caso é Jayme Ovalle.

E por que Werneck resolveu escrever sobre Ovalle? Porque não havia nada sobre ele, um personagem singular que influenciara vários poetas, músicos, compositores, sem que tivesse deixado uma única obra sua. Jayme Ovalle é um grande artista que não teve meio adequado; teve pouco estudo e uma epilepsia em forma branda. Foi Mário de Andrade quem percebeu o artista e a sua incapacidade de colocar para fora sua arte. Assim, Mário fez com que a arte de Ovalle “vazasse” em algumas conversas de botequim. Sabe-se hoje que Jayme Ovalle influenciou Manuel Bandeira, Dante Milano e chegou a dar-lhes histórias inteiras. Xico Sá lembra que Ovalle chegou a se apaixonar por uma pomba (é sério!) e que ficara desesperado quando descobriu que havia um pombo na vida da pombinha. Mais risadas. A conversa de botequim rendeu. Mesmo para quem não gosta de períneos… ou nem sabia que não gostava.

Botequim com Santo Sujo não poderia ser uma mesa totalmente inocente, mas foi interessante. E para quem não quer conhecer o tal pedacinho do corpo humano: esqueça isso e vá ler O Santo Sujo, um livro belíssimo!