Com o pensamento em Manuel Bandeira, talvez não por acaso o texto abaixo tenha deslizado nos caminhos da memória às vesperas desses dias de mães e mãos. O texto faz parte de um livro de Ítalo Moriconi e nos absorve pelo desenho poético das linhas. Então, o transcrevemos em homenagem aos poetas, à poesia, às mãos de Marias Luizas e Anas e Manueis.
A eternidade está longe
(Menos longe que o estirão
Que existe entre o meu desejo
E a palma da minha mão)
[Manuel Bandeira]
Ana Cristina se apaixonou pela palavra muito cedo. No início, não sabia escrever. A poesia era arte ouvida. (…) Ditava seus poemas à mãe, que os punha em forma caligráfica. A mão da mãe era o veículo pelo qual Ana podia expressar-se.
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O sofá ainda é o mesmo, embora depois da perda da filha Wado e Maria Luiza tenham se mudado para um novo apartamento na Ladeira dos Tabajaras, um pouco maior que o da Toneleros. Maria Luiza lembra o estado de excitação em que Ana ficava quando bolava um poema na cabecinha e queria porque queria, gênio urgente, que a mão da mãe o passasse logo para o papel. Entre um verso e outro, ela pulava sobre o sofá, corria de lá para cá, era toda ofegância e gritos, cavalgando no sofá corcel da criação fome de açabancar o mundo pela palavra, cavalgando, cavalgante, cavalgada, cavalo recebendo o espírito da fenda aberta entre sua mão que ainda não tinha caligrafia e a mão da mãe, mão de carinho, mão de concretizar palavra falável, pathos da transmissão, eu sou o caminho, a verdade, a vida, lâmpada para meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho, posso ouvir a voz, a voz da poesia, eu sou papai, eu sou pastor, cavalo cavalgando, cavalgando como muito mais tarde Emily Dickinson cavalgará o alazão dos ritmos do hinário impondo sobre eles a violência do travessão, a censura da cicatriz, a ferida por onde verte sangue, luz, voz, ouro, ouro do Pai, ó pai, ouro de Itabira, bandeiras desfraldando, Ana correndo e gritando versos, para lá e para cá, de um lado a outro do sofá, os versos saindo da garganta como num concerto de rock, o corpo todo balança, o sofá é o palco, a cabeça gira, de lucidez e demônios.
E as mãos se entrelaçam, lucram, pelo trabalho das mãos o lucro se torna sagrado benfazejo, quem é mãe, quem a filha, “minha filha” diz Ana atrevida, posseira. Batizado. Um dia Ana menina já mais taluda, já possuída pela mão que escreve, escreve um conto e nele põe Manuel Bandeira como personagem, posseira atrevida, e todos lucram, ó sim, desta vez a terra será consagrada pelos dedos de um verdadeiro poeta, o pão do poeta já está no farnel, para todo o sempre. Maria Luiza estende a mão, por intermédio de uma pessoa conhecida consegue falar com Bandeira, de quem tinha sido aluna na Nacional, mostra-lhe o conto, ó pai, luz do meu caminho, cavalgando a cavalgar. Bandeira então manda para Ana seu certificado de nascimento, passaporte para o sempre mais, para o além, flores do mais, manda-lhe cópia manuscrita de dois poemas seus, as mãos de Bandeira chegam às mãos de Ana pelas mãos diligentes de Maria Luiza, “– Entra, Ana, você não precisa pedir licença”*
* Os poemas enviados à Ana foram “Debussy” e “Irene no Céu”.
Ítalo Moriconi, Ana Cristina Cesar – O sangue de uma poeta.
Rio de Janeiro: Relume-Dumará: Prefeitura, 1996 (Perfis do Rio n.14) p.77-79
E aí estão os poemas na caligrafia de Manuel Bandeira, enviados à Ana Cristina Cesar em 1963. Ao clicar na imagem, estarão nas suas mãos.