Um problema de imagem
Ele gostaria de segurar o tempo
não como a ampulheta do velho
entre as mãos
mas apenas segurar o rosto
que o tempo havia revelado
diante de seus olhos.
Não apenas o rosto, mas as coxas
o jeans e a comissura dos lábios
que logo fugiriam pela porta.
Flores cresceriam por convicção
em vasinhos de flores nos beirais das janelas
e os siriris voltariam com o tempo seco
e o calor atípico em pleno inverno.
Heitor Ferraz Mello, Coisas imediatas* [1996-2004]
Coleção Guizos Rio de Janeiro: 7 Letras, 2004, p.18
*Esta edição reúne os livros Resumo do dia,
A mesma noite, Goethe nos olhos do lagarto,
Hoje como ontem ao meio-dia e Pré-desperto.
Lindo, e me fez lembrar também:
Lembro de cenas da minha infancia
como quem não sabe se viu um filme.
Memoria entrecortada, cinema
Historias cheias de preambulos
Inusitados angulos, tomadas
Que pulam do estádio
7 anos, aquela multidão
Pra um close
Nos olhos do meu irmão
Mas como no filme estranho
Vem por vezes a lembrança certeira
Essa história conheço de dantes
Era eu, você, a meninada
Seis, sete pés no sofá
Ouvindo a noite sussurrar
O desfecho do filme
No ar