Era uma vez um homem que andava por uma rua de Dublin e se denominava Dédalo, o feiticeiro, construtor de labirintos e das asas de Ícaro, que voou até tão próximo do sol que caiu, como o apóstolico dublinense James Joyce iria mergulhar fundo num mundo de palavras – das “epifanias” da juventude às “epistoloucologias” dos anos seguintes.
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Um homem de gostos indecentes e incoerências gritantes, que tinha medo de cachorros e trovões, mas impunha medo e submissão àqueles que conhecia; um homem que aos trinta e nove anos chorava por não ter tido uma grande família própria e, apesar disso, maldizia a sociedade e a Igreja para a qual sua mãe, como tantas mães irlandesas, era um ” vaso de parir rachado”.
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A morte, porém, nem queima nem mata a mãe da lembrança, e em sua ficção ela volta para atormentá-lo repetidas vezes, a mortalha atirada longe, os olhos vidrados fitando-o do além túmulo para sacudir e dobrar sua alma. Só para ele. Era como se fosse um filho único, o que num certo sentido ele sentia ser, embora também se descrevesse como um filho adotivo. Que tinha medo dela, não há dúvida, e que fez tudo para reprimir esse medo, é igualmente certo, mas o efeito dela nele era de longo alcance. O beijo de língua de uma prostituta, a hóstia na língua e a ternura da mãe eram os três símbolos que combatiam por sua alma. Se ela não houvesse morrido então, ele, por sua arte, teria tido de matá-la. Escritores e suas mães – profundezas não cartografadas.
Edna O' Brien: James Joyce - Breves Biografias
Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 1999, pgs. 9, 30.