Deus, um delírio é um livro engraçado”

dawkins_flip2009_sergio_fonseca

Talvez alguns jornalistas mais desavisados tenham se decepcionado ao avistar  Richard Dawkins na coletiva que o biólogo e escritor concedeu à imprensa no dia 02 de julho, mesmo dia em que proferiu sua palestra/bate-papo com Silvio Boccanera na FLIP. Afinal, com sua camisa decorada com hibiscos, típica de turistas em férias no Brasil, o homem guardava mais semelhanças com um simpático tio-avô do que com a imagem que a alcunha ”Rotweiller de Darwin” poderia evocar nos mais impressionáveis. Recém-chegado do Pantanal, de onde voltou devidamente impressionado (”Se eu desconhecesse a Evolução, teria caído de joelhos e exclamado Deve haver um deus responsável por tanta beleza”, declarou ele em certo ponto), o biólogo autografou livros ao final e até arranhou o português em alguns momentos.

Que ninguém pense por isso que ”o ateu mais famoso do mundo”, outro apelido que Dawkins ganhou da imprensa, é avesso a confrontos. Uma rápida olhada em alguns títulos de suas obras, tais como O Capelão do Diabo (The Devil’s Chaplain) e Deus, um Delírio (The God Delusion) seriam suficientes para afastar tal impressão. Com uma retórica ácida e um humor por vezes cortante, Dawkins não tem pudor em apontar o absurdo de crenças religiosas e os males delas advindos. O biólogo, que começou sua carreira literária com um esforço de tornar a Evolução um processo mais compreensível e atraente ao público leigo, voltou-se cada vez mais para a refutação da crença em deuses, em um discurso que já foi chamado pejorativamente de ”atheist preaching” (pregação ateísta). O estilo direto na abordagem do assunto já levou a situações surreais, como a tentativa (mal-sucedida) de um político em Oklahoma de proibir uma palestra do escritor em seu Estado.

As reações viscerais ao trabalho do cientista talvez sejam um sintoma de um fenômeno apontado por ele quando perguntado por um dos jornalistas presentes sobre o tom utilizado em Deus, um Delírio, obra consideravelmente mais incisiva do que The Blind Watchmaker (O Relojoeiro Cego), que desmistificava a noção de um criador inteligente (o ”relojoeiro” postulado por filósofos medievais), ao explicar o fenômeno da evolução das espécies através da seleção natural. ”Na verdade eu o considero [Deus, um Delírio] um livro engraçado. Não sei se o humor aparece na versão traduzida, mas espero que sim. Mas eu sei que muitos críticos o atacaram como um livro exagerado ou arrogante. Isto acontece porque todos fomos ensinados que não se pode atacar a religião, o que faz com que mesmo uma crítica bastante moderada e bem-humorada seja vista como agressiva, como uma pregação. [Deus, um Delírio] é um livro engraçado, é um livro gentil, que começa de uma forma gentil, lembrando da minha afeição pelo capelão da minha escola, que foi quem me ensinou religião. O livro contém muito mais empatia do que muitos dos críticos – que na verdade não o leram – acreditam.”

Talvez o termo ”pregação ateísta”, despido de seu caráter pejorativo, não seja de todo inadequado para descrever Richard Dawkins. O entusiasmo que o cientista nutre por seu objeto de estudo é contagiante. Questionado se a inteligência artificial é o próximo passo da evolução, ele, depois de comentar sobre as limitações do estágio atual do desenvolvimento de tal forma de inteligência, acrescenta:

”É bem provável que a ciência produzida daqui a um século nos pareça tão maravilhosa e estranha e misteriosa quanto a nossa ciência pareceria a um camponês medieval. A ciência e a tecnologia do século seguinte nos parecerá ser pura mágica. Eu diria que existe tanto para ainda ser feito pela Ciência que o resultado será muito mais maravilhoso, muito mais grandioso, até mesmo muito mais poético do que qualquer um que atualmente se considera espiritualista ou místico seria capaz de sonhar.”

2 Responses to ““Deus, um delírio é um livro engraçado””

  1. Dauton says:

    Richard é muito foda.

    recomendo altamente seu documentário… ” The Root of All Evil”

  2. Assis Utsch says:

    Uma das críticas que se lê sobre Richard Dawkins é a de que ele seria tão fundamentalista quanto aqueles que critica. Em seu livro ele responde: “Cristãos fundamentalistas são apaixonadamente contra a evolução, e eu apaixonadamente a favor dela. … quando dois pontos de vista contrários são manifestados …, a verdade não está necessariamente no meio. É possível que um dos lados esteja simplesmente errado. … O fundamentalista … declara que todas as evidências do universo não o fariam mudar de opinião. O verdadeiro cientista … sabe exatamente o que é necessário para fazê-lo mudar de opinião: evidências”. (p.14)
    Os críticos dizem também: as pessoas prrecisam da religião. Dawkins: ” … entender que ‘X [Deus] é um consolo não significa que ‘X é verdade”. (p.19)
    Sobre o ateísmo de Hitler e Stalin, alegado pelos religiosos como forma identificar o mal do ateísmo, Dawkins indica documentos, atos e práticas de Hitler atestando que ele não rompeu com o cristianismo, apesar de apreciar Nietzsche; e ainda teve a seu favor, senão o apoio, pelo menos o silêncio do papa da época. (Hitler e outros chefes nazistas não foram excomungados, como se esperava). Em outro lugar já dissemos que Stalin, não sendo um homem dado a preocupações metafísicas, pode ter sido ateu apenas na aparência, apenas para acatar os dogmas marxistas. De qualquer maneira Dawkins afirma: ainda que eles fossem efetivamente ateus, eles fizeram suas maldades em nome dos dogmas nazistas e comunistas; não foram movidos por ateísmo. E dogma de qualquer natureza mata. De outra parte, pesquisas confirmam que no Brasil cem por cento dos homicidas acreditam em Deus.
    “É posssíverl ser um ateu feliz, equilibrado, ético e intelectualmente realizado”. (p.23) ” … uma compreensão adequada da magnificência do mundo real … é capaz de preencher o papel inspiracional usurpado pela religião”. (p.26). Assis Utsch (autor de O Garoto Que Queria Ser Deus)

Leave a Reply