
Talvez alguns jornalistas mais desavisados tenham se decepcionado ao avistar Richard Dawkins na coletiva que o biólogo e escritor concedeu à imprensa no dia 02 de julho, mesmo dia em que proferiu sua palestra/bate-papo com Silvio Boccanera na FLIP. Afinal, com sua camisa decorada com hibiscos, típica de turistas em férias no Brasil, o homem guardava mais semelhanças com um simpático tio-avô do que com a imagem que a alcunha ”Rotweiller de Darwin” poderia evocar nos mais impressionáveis. Recém-chegado do Pantanal, de onde voltou devidamente impressionado (”Se eu desconhecesse a Evolução, teria caído de joelhos e exclamado Deve haver um deus responsável por tanta beleza”, declarou ele em certo ponto), o biólogo autografou livros ao final e até arranhou o português em alguns momentos.
Que ninguém pense por isso que ”o ateu mais famoso do mundo”, outro apelido que Dawkins ganhou da imprensa, é avesso a confrontos. Uma rápida olhada em alguns títulos de suas obras, tais como O Capelão do Diabo (The Devil’s Chaplain) e Deus, um Delírio (The God Delusion) seriam suficientes para afastar tal impressão. Com uma retórica ácida e um humor por vezes cortante, Dawkins não tem pudor em apontar o absurdo de crenças religiosas e os males delas advindos. O biólogo, que começou sua carreira literária com um esforço de tornar a Evolução um processo mais compreensível e atraente ao público leigo, voltou-se cada vez mais para a refutação da crença em deuses, em um discurso que já foi chamado pejorativamente de ”atheist preaching” (pregação ateísta). O estilo direto na abordagem do assunto já levou a situações surreais, como a tentativa (mal-sucedida) de um político em Oklahoma de proibir uma palestra do escritor em seu Estado.
As reações viscerais ao trabalho do cientista talvez sejam um sintoma de um fenômeno apontado por ele quando perguntado por um dos jornalistas presentes sobre o tom utilizado em Deus, um Delírio, obra consideravelmente mais incisiva do que The Blind Watchmaker (O Relojoeiro Cego), que desmistificava a noção de um criador inteligente (o ”relojoeiro” postulado por filósofos medievais), ao explicar o fenômeno da evolução das espécies através da seleção natural. ”Na verdade eu o considero [Deus, um Delírio] um livro engraçado. Não sei se o humor aparece na versão traduzida, mas espero que sim. Mas eu sei que muitos críticos o atacaram como um livro exagerado ou arrogante. Isto acontece porque todos fomos ensinados que não se pode atacar a religião, o que faz com que mesmo uma crítica bastante moderada e bem-humorada seja vista como agressiva, como uma pregação. [Deus, um Delírio] é um livro engraçado, é um livro gentil, que começa de uma forma gentil, lembrando da minha afeição pelo capelão da minha escola, que foi quem me ensinou religião. O livro contém muito mais empatia do que muitos dos críticos – que na verdade não o leram – acreditam.”
Talvez o termo ”pregação ateísta”, despido de seu caráter pejorativo, não seja de todo inadequado para descrever Richard Dawkins. O entusiasmo que o cientista nutre por seu objeto de estudo é contagiante. Questionado se a inteligência artificial é o próximo passo da evolução, ele, depois de comentar sobre as limitações do estágio atual do desenvolvimento de tal forma de inteligência, acrescenta:
”É bem provável que a ciência produzida daqui a um século nos pareça tão maravilhosa e estranha e misteriosa quanto a nossa ciência pareceria a um camponês medieval. A ciência e a tecnologia do século seguinte nos parecerá ser pura mágica. Eu diria que existe tanto para ainda ser feito pela Ciência que o resultado será muito mais maravilhoso, muito mais grandioso, até mesmo muito mais poético do que qualquer um que atualmente se considera espiritualista ou místico seria capaz de sonhar.”




















